{"id":16532,"date":"2024-08-25T02:08:51","date_gmt":"2024-08-25T02:08:51","guid":{"rendered":"https:\/\/tortoro.com.br\/?p=16532"},"modified":"2024-08-25T02:18:04","modified_gmt":"2024-08-25T02:18:04","slug":"artigo-omar-o-eloquente","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/tortoro.com.br\/?p=16532","title":{"rendered":"ARTIGO &#8211; OMAR : O ELOQUENTE"},"content":{"rendered":"<p><a href=\"https:\/\/tortoro.com.br\/wp-content\/uploads\/2024\/08\/omar-eloquente-para-site.png\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-full wp-image-16533\" src=\"https:\/\/tortoro.com.br\/wp-content\/uploads\/2024\/08\/omar-eloquente-para-site.png\" alt=\"\" width=\"1200\" height=\"875\" srcset=\"https:\/\/tortoro.com.br\/wp-content\/uploads\/2024\/08\/omar-eloquente-para-site.png 1200w, https:\/\/tortoro.com.br\/wp-content\/uploads\/2024\/08\/omar-eloquente-para-site-300x219.png 300w, https:\/\/tortoro.com.br\/wp-content\/uploads\/2024\/08\/omar-eloquente-para-site-1024x747.png 1024w, https:\/\/tortoro.com.br\/wp-content\/uploads\/2024\/08\/omar-eloquente-para-site-768x560.png 768w\" sizes=\"auto, (max-width: 1200px) 100vw, 1200px\" \/><\/a><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Omar embalava um sonho: ter um dia uma boa poupan\u00e7a, comprar uma casa pr\u00f3pria e um bom autom\u00f3vel, constituir fam\u00edlia e <em>conhecer o mar<\/em>: Filhos n\u00e3o eram sua prioridade porque n\u00e3o se achava devidamente maduro para t\u00ea-los, e assumir tamanha responsabilidade<\/p>\n<p>Por isso se preparava para os desafios da vida, lendo muito, de bulas de rem\u00e9dios a obras consagradas de autores nacionais e internacionais: ele era conhecido nas redondezas de sua casa como \u201co jovem que sempre estava lendo livros diferentes, andando pela rua\u201d: ia de sua casa para o col\u00e9gio, depois para a biblioteca municipal, e voltava para casa com mais um livro nas m\u00e3os.<\/p>\n<p>Omar era estranho, quase esquisito. Cabe\u00e7a de sexagen\u00e1rio em corpo jovem de 16 anos. Sonhava encontrar uma princesa que vivia num pal\u00e1cio, talvez em Passargada. Qual ocorreu com Jac\u00f3, existiu uma Lia, passageira em sua vida, mas Omar queria uma Raquel, mesmo que tivesse que esperar por muito tempo.<\/p>\n<p>Devido \u00e0s suas leituras, ao dormir Omar sonhava com minas de carv\u00e3o do Pa\u00eds de Gales, ao lado do Dr. Andrew Manson, idealista e sonhador como ele\u00a0 \u2014 personagem mencionado nas obras do m\u00e9dico e escritor escoc\u00eas, A.J. Cronin; sonhava estar nas praias de Salvador\u00a0 com os Capit\u00e3es da Areia de Jorge Amado ou em g\u00e9lidas pairagens e estepes mencionadas por Dostoievski , Tolstoi, Gogol, Gorki. Nesses sonhos Omar convivia com Anna Kar\u00e9nina e os irm\u00e3os Karamazov; percorria as matas do Cear\u00e1 com Iracema , de Jos\u00e9 de Alencar e conversava com personagens de Machado de Assis.<\/p>\n<p>Nos fins de semana, quando n\u00e3o ia jogar futebol no terreno que ficava ao fundo de sua casa, ouvia, na velha vitrola,\u00a0 trechos de \u00f3peras com o pai: ouvia em 78 rota\u00e7\u00f5es, os tenores Beniamino Gigli e Enrico Caruso, ou cantava junto com o som chiado dos discos, m\u00fasicas de Vicente Celestino, que ambos sabiam de cor e salteado.<\/p>\n<p>Omar tamb\u00e9m gostava de frequentar o cine do bairro em que morava. Sua prefer\u00eancia eram filmes biogr\u00e1ficos ou hist\u00f3rias reais. Mas gostou muito de assistir\u00a0 Ben-Hur, Os Dez Mandamentos e El Cid. Encantou-se com Sarita Montiel em La Violetera; e com Marcelino, Pablito Calvo, do filme Marcelino P\u00e3o e Vinho: Omar tinha inveja do menino que conversava com Cristo, descido da Cruz.<\/p>\n<p>Tudo Omar anotava em seu insepar\u00e1vel di\u00e1rio \u2014 resumos de livros lidos, fatos marcantes mencionados por jornais, revistas e TV \u2014 inclusive ideias para criar textos, que lhe vinham \u00e0 mente quando passeava sozinho pelas passarelas da pracinha do bairro., nas noites de folga da faculdade.<\/p>\n<p>Omar era eloquente, gostava de falar e escrever poemas rom\u00e2nticos, e \u00e0s vezes dram\u00e1ticos, que sa\u00edam de sua mente f\u00e9rtil. Ele se divertia criando acr\u00f3sticos para algumas garotas que conhecia.<\/p>\n<p>No col\u00e9gio, cursando o Cient\u00edfico de Engenharia, era aceito pelos demais colegas, filhos de pais poderosos pol\u00edtica e financeiramente, porque tinha a cultura adquirida nos livros e desenhava com facilidade, um dom gratuito que recebeu de Deus: era o respons\u00e1vel pela arte final de todos os trabalhos.<\/p>\n<p>Antes de come\u00e7ar a trabalhar no Banco, cumpriu um ano de Tiro de Guerra, de onde saiu Cabo, e com uma medalha no peito \u2014 entregue pelo Prefeito da cidade e um General do Ex\u00e9rcito que visitou a cidade \u2014 por haver se destacado como Monitor. Eram de grande agita\u00e7\u00e3o pol\u00edtica e social, p\u00f3s-revolu\u00e7\u00e3o de 64, na d\u00e9cada de setenta.<\/p>\n<p>No Banco, durante alguns meses, cumpriu a fun\u00e7\u00e3o de auxiliar de caixa: todo final de dia registrava em relat\u00f3rio, despesas e receitas. As contas tinham que bater porque sen\u00e3o, teria que ficar at\u00e9 mais tarde, e perderia o hor\u00e1rio de in\u00edcio das aulas na faculdade, \u00e0 noite: chegou a ser levado de ambul\u00e2ncia, com c\u00f3licas renais devido a um c\u00e1lculo, por n\u00e3o parar com suas tarefas nem para fazer suas necessidades fisiol\u00f3gicas. Era extremamente respons\u00e1vel.<\/p>\n<p>Com o primeiro sal\u00e1rio, comprou uma blusa de l\u00e3 antial\u00e9rgica: a que possu\u00eda, n\u00e3o usava porque a l\u00e3 de que era feita pinicava demais. Ele ent\u00e3o dizia aos colegas, ao ser perguntado, que n\u00e3o sentia frio. Com a nova aquisi\u00e7\u00e3o, pode esquentar o frio, sentido calado por anos e anos a fio,.<\/p>\n<p>Certo dia, o gerente disse que teria que dispensar algu\u00e9m por problemas de conten\u00e7\u00e3o de despesas. Os dois contratados mais recentes eram um motoboy, casado e com dois filhos pequenos, e Omar: um deles deveria ser demitido, e seria escolhido aquele com menos tempo de admiss\u00e3o, o motoboy. Omar pediu ao Gerente que o demitido fosse ele, porque teria mais condi\u00e7\u00e3o de conseguir um novo trabalho. E assim foi feito.<\/p>\n<p>Em menos de uma semana, Omar foi contratado por uma empresa de venda de pe\u00e7as e tratores. Apesar de estar cursando a faculdade, pois sonhava ser professor de Matem\u00e1tica, come\u00e7ou seu novo trabalho separando pe\u00e7as velhas, retiradas dos tratores em conserto. Em pouco tempo passou a abrir Ordens de Servi\u00e7o, depois foi Secret\u00e1rio do Gerente da oficina, e, em menos de um ano, j\u00e1 havia sido promovido a vendedor na se\u00e7\u00e3o de pe\u00e7as. Isso ocorreu porque Omar ocupava seu tempo vago, em cada setor que assumia, para aprender sobre os trabalhos desenvolvidos em outros setores. Demonstrava sempre um interesse em saber mais sobre tudo.<\/p>\n<p>Chegou a ser convidado para ser Gerente da filial da empresa na hidrel\u00e9trica de \u00a0Itaipu, no Rio Paran\u00e1, que come\u00e7ava a ser constru\u00edda. Mas como recebia muito mais, dando aulas de Matem\u00e1tica Comercial e Financeira e Estat\u00edstica, \u00e0 noite, recusou a proposta apresentada \u2014 e, por isso, foi demitido.<\/p>\n<p>N\u00e3o \u00e9 de se estranhar, pois era uma empresa multinacional, com Gerentes egoc\u00eantricos e autorit\u00e1rios, que n\u00e3o aceitavam um n\u00e3o: o Gerente Geral subia as escadas dirigindo-se \u00e0 sua sala no segundo andar, passava defronte aos funcion\u00e1rios da se\u00e7\u00e3o de pe\u00e7as, mas somente os cumprimentava quando estava de bom humor, o que n\u00e3o ocorria com frequ\u00eancia.\u00a0 Quanto ao novo, e rec\u00e9m formado em Engenharia, Gerente da Oficina, exigia ser chamado de Doutor. Por esse motivo, Omar criou um clima de tens\u00e3o, porque respondeu que, em sendo assim, queria ser chamado de Professor. Mas ali tamb\u00e9m conheceu um Gerente de verdade, um italiano, n\u00e3o sei se com familiares em Salerno\u2014 de onde a fam\u00edlia de Omar havia vindo ap\u00f3s a Primeira Guerra \u2014 muito sisudo, mas justo, com o qual trabalhou por um ano.<\/p>\n<p>Enfim, todas as experi\u00eancias vividas foram v\u00e1lidas. Omar aprendeu muita coisa sobre pe\u00e7as e m\u00e1quinas, e aplicou esses conhecimentos adaptando-os ao trabalhar numa oficina mec\u00e2nica, como comprador e vendedor de pe\u00e7as, na loja em anexo \u00e0 oficina.<\/p>\n<p>Omar continuou trabalhando muito, somente dando aulas, forma mais importante de garantir seu sustento: dava sessenta aulas por semana, manh\u00e3, tarde e noite, em tr\u00eas lugares diferentes.<\/p>\n<p>Comprou a t\u00e3o desejada casa pr\u00f3pria, e um veiculo zero quil\u00f4metro para seu transporte. Encontrou sua Raquel e casou-se com ela. Na lua de mel conheceu, pela primeira vez, o mar, em Itanha\u00e9m.<\/p>\n<p>E s\u00f3 ent\u00e3o, a partir da\u00ed, soube, finalmente, quem era Omar.<\/p>\n<p>E viveu feliz para sempre.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>ANTONIO CARLOS T\u00d3RTORO<br \/>\n<\/strong>Ex-presidente da ARL \u2013 Academia Ribeir\u00e3opretana de Letras<br \/>\n<a href=\"http:\/\/www.tortoro.com.br\">www.tortoro.com.br<\/a><br \/>\nancartor@yahoo.com<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&nbsp; Omar embalava um sonho: ter um dia uma boa poupan\u00e7a, comprar uma casa pr\u00f3pria e um bom autom\u00f3vel, constituir fam\u00edlia e conhecer o mar: Filhos n\u00e3o eram sua prioridade porque n\u00e3o se achava devidamente maduro para t\u00ea-los, e assumir tamanha responsabilidade Por isso se preparava para os desafios da vida, lendo muito, de bulas [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":4,"featured_media":16533,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[19,21,7,8,6,16],"tags":[],"class_list":["post-16532","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-academias","category-arl-academia-ribeiraopretana-de-letras","category-artigos","category-biografia","category-literatura","category-quem-sou"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/tortoro.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/16532","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/tortoro.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/tortoro.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/tortoro.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/4"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/tortoro.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=16532"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/tortoro.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/16532\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":16534,"href":"https:\/\/tortoro.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/16532\/revisions\/16534"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/tortoro.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/media\/16533"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/tortoro.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=16532"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/tortoro.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=16532"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/tortoro.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=16532"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}