{"id":6607,"date":"2014-08-15T20:43:57","date_gmt":"2014-08-15T20:43:57","guid":{"rendered":"http:\/\/www.tortoro.com.br\/blog\/?p=6607"},"modified":"2014-08-15T22:32:22","modified_gmt":"2014-08-15T22:32:22","slug":"li-e-gostei-o-obsceno-passaro-da-noite","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/tortoro.com.br\/?p=6607","title":{"rendered":"LI E GOSTEI: O OBSCENO P\u00c1SSARO DA NOITE"},"content":{"rendered":"<p>UM VOO INESQUEC\u00cdVEL COM OBSCENO P\u00c1SSARO<\/p>\n<p>\u201cA heran\u00e7a natural de todo indiv\u00edduo capaz de ter uma vida espiritual \u00e9 uma floresta ind\u00f4mita na qual o lobo uiva e o obsceno p\u00e1ssaro da noite chilreia.\u201d<br \/>\n\t\t\t\t\t\t         Henry James Jr <\/p>\n<p>\tUma sensa\u00e7\u00e3o indescrit\u00edvel de tontura, uma experi\u00eancia inc\u00f4moda, um passeio por uma estrutura em que se confunde a voz narrativa a cada momento, uma viagem fant\u00e1stica e monstruosa pela mente do narrador que nos faz lembrar grandes nomes da literatura hispano-americana: Gabriel Garcia Marquez e Mario Vargas Llosa.<br \/>\n\tFaz-se necess\u00e1rio um esfor\u00e7o para que possamos compreender as vis\u00f5es e vozes que durante a leitura desse texto nos d\u00e1 uma sensa\u00e7\u00e3o de inseguran\u00e7a e tens\u00e3o.<br \/>\n\tPareceu-me estar numa montanha russa ao seguir o fluxo de consci\u00eancia de Mudinho \u2014 tal qual em  obras de Clarice e Proust \u2014 morador mais antigo de uma casa que abriga senhoras idosas, \u00f3rf\u00e3s e freiras.<br \/>\n\tLer essa  principal obra de Jos\u00e9 Donoso, escritor chileno, \u00e9, mergulhado num clima que n\u00e3o separa fantasia da realidade, encarar o horror, sentir nojo, mas tamb\u00e9m \u00e9, como um p\u00e1ssaro da noite, sobrevoar e penetrar no mais \u00edntimo de seus personagens, repensar id\u00e9ias e sensa\u00e7\u00f5es que j\u00e1 tivemos algum dia, \u00e9 encontrar escondidas em algum lugar no s\u00f3t\u00e3o de nossas almas imagens, lembran\u00e7as, viagens, pensamentos, sensa\u00e7\u00f5es: \u00e9 poder ver o humano como um louco v\u00ea o mundo, sem filtros.<br \/>\n\tEm algum ponto da leitura, pensei em desistir, porque n\u00e3o \u00e9 f\u00e1cil encarar suas quatrocentos e oitenta e oito p\u00e1ginas: \u00e9 um livro do tipo ame-o ou deixe-o.<br \/>\n\tEu amei.<br \/>\n\tAndei, relembrando parte do meu passado, pelo casar\u00e3o que seria demolido \u2014 trabalhei por anos  no pr\u00e9dio em forma de U do antigo Col\u00e9gio Santa \u00darsula, que abra\u00e7ava o p\u00e1tio das mangueiras, hoje demolido e cedendo lugar ao shopping de mesmo nome \u2014 sentindo com as velhas e \u00f3rf\u00e3s da Casa de Exerc\u00edcios Espirituais a inseguran\u00e7a com rela\u00e7\u00e3o ao  futuro: \u201c Havia noites em que se escutavam at\u00e9 muito tarde, por tr\u00e1s das portas das cem celas que formavam um U, abra\u00e7am o p\u00e1tio das laranjeiras, choros e gemidos&#8230;\u201d<br \/>\n\tO narrador de Donoso n\u00e3o \u00e9 nada confi\u00e1vel, confundindo presente com passado \u2014 chega a mudar sem aviso pr\u00e9vio a voz narrativa muitas vezes numa mesma frase \u2014  mergulhando o leitor numa atmosfera delirante: se a leitura n\u00e3o for muito atenta, nos perdemos na ca\u00f3tica cabe\u00e7a confusa e desordenada de Mudinho.<br \/>\nO mundo de Donoso \u00e9 obscuro, tal o p\u00e1ssaro do t\u00edtulo, envolto de mis\u00e9ria moral e social, habitado por seres bizarros, grotescos, exc\u00eantricos e a estrutura de sua obra destr\u00f3i de forma genial, totalmente desconcertante, toda e qualquer estrutura com a qual estamos habituados: uma solu\u00e7\u00e3o que o autor prop\u00f5e com rela\u00e7\u00e3o \u00e0 literatura de sua \u00e9poca \u2014 o chamado boom da literatura hispano-americana, na d\u00e9cada de 60, tempos de Carlos Fuentes, escritor admirado por Donoso e representante da \u00e2nsia por ruptura de barreiras  \u2014  em que \u201cas obras consagradas eram elogiadas e estudadas nas escolas, universidades em todas as institui\u00e7\u00f5es, e que a um escritor iniciante cabia apenas seguir-lhes os moldes, a fim de que seus futuros romances se parecessem com as obras de leitura obrigat\u00f3ria e tamb\u00e9m muito oportunas \u00e0s empreitadas editoriais que a eles se dedicassem\u201d,  como dizia o pr\u00f3prio Donoso.<br \/>\n\tSegundo Maria C\u00e9lia Martirani :<br \/>\n\t\u201cCom efeito, o enredo est\u00e1 t\u00e3o bem costurado \u00e0 estrutura que \u00e9 poss\u00edvel perceber nitidamente dois eixos de for\u00e7a b\u00e1sicos ao redor dos quais a narrativa oscila: a opress\u00e3o asfixiante de ambientes claustrof\u00f3bicos \u2014 em que velhas decr\u00e9pitas, antigas empregadas das oligarquias locais arrastam-se como sombras, com suas hist\u00f3rias, tiques e manias \u2014 e a insistente, mas v\u00e3, tentativa do escritor\/personagem Humberto Penaloza de criar, por meio de sua obra, uma janela que se abra para fora daquele ambiente soturno \u2014 traduzindo, assim, a \u00e2nsia por ultrapassar as fronteiras da dic\u00e7\u00e3o regionalista, t\u00e3o imperativa antes da d\u00e9cada de 1960. Importa notar que esse romance foi publicado em 1970.A clausura fantasmag\u00f3rica \u00e9 muito bem constru\u00edda na Casa de Exerc\u00edcios Espirituais de Chimba, em que vivem as velhas, algumas freiras, poucas jovens \u00f3rf\u00e3s e Mudinho (o carcereiro, detentor de todas as chaves da casa) e remete ao aprisionamento ditado pelos par\u00e2metros daqueles crit\u00e9rios liter\u00e1rios redutores, adotados antes do boom, que cerceavam qualquer inventividade formal. Recuperando algumas lendas locais, supersti\u00e7\u00f5es, feiti\u00e7os e bruxarias e investindo nos relatos das velhas e de suas narrativas a fim de recuperar uma certa po\u00e9tica folcl\u00f3rica da oralidade, o narrador \u2014 que se multiplica e se escamoteia, transfigurado em mil disfarces, fruto tamb\u00e9m da feiti\u00e7aria criativa \u2014, a uma certa altura, explica o que vem a ser o imbunche, que na tradi\u00e7\u00e3o popular chilena \u00e9 um monstro mal\u00e9fico de rosto voltado para as costas que anda s\u00f3 com uma perna por ter a outra colada \u00e0 nuca. A fun\u00e7\u00e3o desses seres horrendos era montar guarda aos tesouros escondidos das bruxas. A recorr\u00eancia a essa figura, retomada da tradi\u00e7\u00e3o aut\u00f3ctone, remete-nos, de imediato, \u00e0 cr\u00edtica agu\u00e7ada ao poder das oligarquias locais e dos regimes tir\u00e2nicos que submetem os mais fracos, alienando-os e fazendo com que permane\u00e7am subservientes e resignados. Em boa medida, em O obsceno p\u00e1ssaro da noite, \u00e9 poss\u00edvel perceber essa travessia do claustro obscuro \u00e0 luz como met\u00e1fora sens\u00edvel da derrubada das fronteiras de uma literatura que se voltava para si mesma, no momento em que passa a se abrir em dire\u00e7\u00e3o ao mundo. Parece-nos ent\u00e3o, que Donoso exorciza, no ato mesmo da escrita, os dem\u00f4nios de cujos traumas n\u00e3o  consegue se livrar com facilidade\u201d.<br \/>\n\tPara finalizar um destaque: a cria\u00e7\u00e3o da Rinconada em que s\u00f3 residem monstros, todos frutos da pena ficcional  do personagem Humberto Penaloza \u2014 fic\u00e7\u00e3o dentro da fic\u00e7\u00e3o \u2014 , um espa\u00e7o \u00e0 parte, totalmente isolado do resto do mundo e habitado apenas por outros seres deformados, a fim de que o menino deformado,  Boy  \u2014filho  de Jer\u00f4nimo Azcoitia, poderoso oligarca de Chimba \u2014se habitue a achar \u201cnormais\u201d os indiv\u00edduos que lhe est\u00e3o ao redor.            No fundo, o que aqui se prop\u00f5e \u00e9 uma total relativiza\u00e7\u00e3o dos conceitos dicot\u00f4micos de normalidade e anormalidade, um verdadeiro estremecimento das bases consagradas sobre o conceito de beleza.<\/p>\n<p>ANTONIO CARLOS T\u00d3RTORO<br \/>\nancartor@yahoo.com<br \/>\nwww.tortoro.com.br<br \/>\n<a href=\"https:\/\/tortoro.com.br\/wp-content\/uploads\/2014\/08\/CAPA-OBSCENO-PASSARO-DA-NOITE.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/tortoro.com.br\/wp-content\/uploads\/2014\/08\/CAPA-OBSCENO-PASSARO-DA-NOITE-215x300.jpg\" alt=\"CAPA-OBSCENO-PASSARO-DA-NOITE\" width=\"215\" height=\"300\" class=\"aligncenter size-medium wp-image-6608\" data-wp-pid=\"6608\" srcset=\"https:\/\/tortoro.com.br\/wp-content\/uploads\/2014\/08\/CAPA-OBSCENO-PASSARO-DA-NOITE-215x300.jpg 215w, https:\/\/tortoro.com.br\/wp-content\/uploads\/2014\/08\/CAPA-OBSCENO-PASSARO-DA-NOITE-734x1024.jpg 734w, https:\/\/tortoro.com.br\/wp-content\/uploads\/2014\/08\/CAPA-OBSCENO-PASSARO-DA-NOITE-574x800.jpg 574w, https:\/\/tortoro.com.br\/wp-content\/uploads\/2014\/08\/CAPA-OBSCENO-PASSARO-DA-NOITE.jpg 861w\" sizes=\"auto, (max-width: 215px) 100vw, 215px\" \/><\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>UM VOO INESQUEC\u00cdVEL COM OBSCENO P\u00c1SSARO \u201cA heran\u00e7a natural de todo indiv\u00edduo capaz de ter uma vida espiritual \u00e9 uma floresta ind\u00f4mita na qual o lobo uiva e o obsceno p\u00e1ssaro da noite chilreia.\u201d Henry James Jr Uma sensa\u00e7\u00e3o indescrit\u00edvel de tontura, uma experi\u00eancia inc\u00f4moda, um passeio por uma estrutura em que se confunde a [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":4,"featured_media":6608,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[7,28,6],"tags":[],"class_list":["post-6607","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-artigos","category-li-e-gostei","category-literatura"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/tortoro.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/6607","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/tortoro.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/tortoro.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/tortoro.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/4"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/tortoro.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=6607"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/tortoro.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/6607\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/tortoro.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/media\/6608"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/tortoro.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=6607"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/tortoro.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=6607"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/tortoro.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=6607"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}