POÇO DE SILOÉ DO SÉCULO XXI
“Unindo o universo bíblico ao drama contemporâneo dos corredores hospitalares”
Cada vez que entro num Pronto Atendimento para uma consulta, sinto-me caminhando para um moderno Poço de Siloé.
Ali estão homens, mulheres, crianças e idosos. Pessoas simples e pessoas de classe média, média alta.
Gente elegante, gente humilde, gente silenciosa, gente aflita. Todos sentados lado a lado sob a mesma luz fria dos corredores hospitalares. A doença não discrimina. A dor não escolhe classe social. O sofrimento iguala os seres humanos de uma forma brutal e silenciosa.
No antigo Poço de Siloé, descrito nas Escrituras, os enfermos aguardavam um milagre. Esperavam que as águas se movessem para que alguém pudesse mergulhar nelas e, talvez, alcançar a cura. Hoje, no século XXI, continuamos esperando.
Mudaram apenas os cenários.
As pedras antigas transformaram-se em pisos brilhantes. As túnicas deram lugar aos jalecos brancos. O murmúrio das multidões virou o ruído constante de televisores, celulares, passos apressados e vozes metálicas emitidas por computadores.
Enquanto esperamos, somos metralhados por nomes de pacientes, números, salas e especialidades:
— “Paciente número 348.” — “Sala 4.” — “Ortopedia.” — “Cardiologia.” — “Neurologia.”
Monitores espalhados pelos corredores anunciam destinos clínicos como se fossem portais de esperança. A voz eletrônica, repetitiva e impessoal, quase se transforma numa tortura mental. Os minutos parecem horas. Os pensamentos vagueiam entre medos, diagnósticos e possibilidades.
Mas tudo muda quando ouvimos nosso próprio nome.
Mesmo pronunciado incorretamente. Mesmo mutilado pela pressa da máquina. Mesmo sem qualquer emoção.
Naquele instante, o coração desperta. Somos nós. Chegou nossa vez de descer simbolicamente às águas modernas de Siloé.
Então surgem os novos sacerdotes da esperança: médicos, especialistas, terapeutas, enfermeiros, técnicos. Vestem branco como antigos personagens sagrados. Carregam não cajados, mas estetoscópios, exames, computadores e receitas.
Os medicamentos tornaram-se as novas águas milagrosas.
As terapias substituem os antigos mergulhos sagrados.
As prescrições descem das mãos dos especialistas como fórmulas contemporâneas de fé científica. E nós acreditamos. Precisamos acreditar. Porque, diante da fragilidade humana, a esperança continua sendo o remédio invisível mais poderoso.
Talvez o ser humano jamais tenha deixado o Poço de Siloé.
Talvez apenas tenha modernizado suas paredes.
Continuamos esperando a cura. Continuamos buscando respostas. Continuamos depositando nossa confiança em alguém que detenha o conhecimento capaz de aliviar nossa dor.
E, no fundo, todos nós — ricos ou pobres, jovens ou velhos — permanecemos iguais diante do mistério do corpo, da doença e da vida.
Nos corredores frios dos hospitais modernos, o antigo Poço de Siloé ainda existe.
Só mudou de endereço.
ANTONIO CARLOS TÓRTORO
Ex-presidente da ARL – Academia Ribeirãopretana de Letras
www.tortoro.com.br
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