ARTIGO: PROJETO PANAMÁ E A MÁQUINA QUE DEVORA LIVROS

 

PROJETO PANAMÁ E A MÁQUINA QUE DEVORA LIVROS

A ideia central será o paradoxo: a inteligência que deseja guardar todo o conhecimento humano, mas que, para aprender, destrói o objeto que o preservou durante séculos.

Durante séculos, o homem protegeu os livros.

Construiu bibliotecas. Combateu traças, umidade, incêndios e o esquecimento. Restaurou páginas. Encadernou novamente aquilo que o tempo insistia em desfazer.

Porque sabia que um livro era mais do que papel.

Então chegou a Inteligência Artificial.

Ela quer aprender.

Quer conhecer nossas histórias, nossos poemas, nossas descobertas, nossos erros, nossas guerras, nossos amores e nossos deuses.

Quer ler tudo.

Li recentemente um artigo publicado na News Brasil, da BBC intitulado “Por que empresas de IA estão destruindo milhares de livros antigos ao redor do mundo”, sobre o Projeto Panamá.

Milhares e milhares de livros começaram a chegar ao Projeto para serem destruídos.

Livros novos. Livros usados. Livros esquecidos nas prateleiras. Talvez alguns que já não encontrassem leitores havia décadas.

Mas a máquina tinha pressa. Não havia tempo para abrir delicadamente cada volume, virar cada página e fechá-lo novamente. Era preciso velocidade.

Cortaram as lombadas. Separaram as folhas. E aquilo que durante décadas havia sido chamado de livro transformou-se numa pilha de papel atravessando velozmente um scanner.

Página após página. Palavra após palavra. Pensamento após pensamento. Do outro lado, nascia o arquivo digital. E morria o livro.

Estranho paradoxo.

Durante séculos queimamos livros para destruir ideias.

Agora podemos destruir livros para preservar ideias.

Antes, o fogo apagava as palavras.

Agora, o scanner as eterniza enquanto condena o corpo que as carregava.

Mas será que salvamos realmente um livro quando salvamos apenas suas palavras?

Penso naquele exemplar antigo encontrado num sebo. Na primeira página, uma dedicatória:

“Para Maria, com todo o meu amor. Natal de 1958.”

A máquina aprenderá o romance. Mas quem guardará Maria?

Quem saberá quem escreveu aquela dedicatória?

Quem conhecerá as mãos que seguraram aquele livro?

Talvez uma lágrima tenha caído sobre determinada página.

Talvez alguém tenha sublinhado uma frase durante uma madrugada de tristeza.

Talvez uma flor tenha permanecido cinquenta anos esquecida entre dois capítulos.

Nada disso pertence necessariamente ao texto.

Mas tudo isso pertence ao livro.

Há livros que carregam duas histórias: aquela que o escritor escreveu e aquela que o leitor deixou.

A Inteligência Artificial poderá conhecer perfeitamente a primeira.

A segunda talvez desapareça numa máquina de reciclagem.

E penso, então, na enorme ironia do nosso tempo.

Criamos máquinas capazes de conversar sobre Shakespeare, Camões, Machado de Assis, filosofia, matemática, estrelas e eternidade.

Para ensiná-las, entregamos aquilo que os mortos deixaram para os vivos: os livros.

A máquina lê. A máquina aprende. A máquina guarda. Depois, alguém recolhe os restos de papel.

Não culpo a máquina. Ela não pediu que cortassem lombadas. Não segura tesouras. Não compra bibliotecas. Não conhece o cheiro de um livro antigo.

Somos nós que decidimos como alimentá-la.

Talvez o verdadeiro problema do Projeto Panamá não esteja na Inteligência Artificial.

Esteja em nossa velha obsessão humana pela velocidade.

Queremos tudo. E queremos agora.

Todo o conhecimento. Todas as páginas. Todas as palavras.

Transformamos bibliotecas em dados para que uma máquina possa responder em segundos aquilo que a humanidade levou milênios para escrever.

Pode ser progresso. Certamente é extraordinário.

Mas progresso sem memória também pode produzir estranhas ruínas.

Imagino uma biblioteca do futuro. Não existirão estantes. Não existirão lombadas. Não existirá papel.

Haverá apenas uma pequena luz piscando.

Perguntaremos à máquina:

— Você conhece este livro?

Ela responderá:

— Conheço cada palavra.

Então farei outra pergunta:

— E onde está o livro?

Por alguns segundos, imagino silêncio.

Porque talvez uma inteligência capaz de guardar milhões de livros ainda não consiga compreender completamente a tristeza contida numa frase tão simples:

— Para que eu pudesse aprendê-lo, ele precisou ser destruído.

E talvez seja esta uma das grandes perguntas do nosso século: quando transformarmos toda a memória humana em dados, ainda saberemos a diferença entre guardar uma história e guardar a sua alma?

 

ANTONIO CARLOS TÓRTORO
Ex-presidente da ARL – Academia Ribeirãopretana de Letras
www.tortoro.com.br
[email protected]

ARL- ACADEMIA RIBEIRÃOPRETANA DE LETRAS, ARTIGOS, LITERATURA

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