ARTIGO: JÓ_ZÉ – SÓ MAIS UM NEOLOGISMO ONOMÁSTICO

 

JÓ_ZÉ : SÓ MAIS UM NEOLOGISMO ONOMÁSTICO

Jó, um homem paciente, perseverante e temente a Deus.
Zé, só um homem dentre milhões de outros homens..

 

Jó_zé chegou ao centro de psicologia para mais uma entrevista.
Era início de agosto — mês de cachorro louco, gato em crise existencial e gente tentando reorganizar a vida com horóscopo de jornal e consultando a moça da IA.

Eram 16h30.

Antes de qualquer coisa, quis garantir mais cinco sessões futuras. Tentou agendar ali mesmo, mas só havia vagas para setembro. Pegou a senha 149. Olhou no painel: estavam atendendo a 137.

Fez os cálculos.
Considerou 15 minutos para cada atendimento, usou gráficos mentais de funções emocionais, aplicou cálculo diferencial, integral e sentimental.
Resultado: se esperasse, perderia sua consulta das 17h — marcada ainda em julho.

Guardou a senha no bolso, como quem guarda esperança, e foi para a consulta, fisioterapia preventiva que durou 20 minutos — o suficiente para perceber que precisaria de mais consultas.

Voltou correndo ao balcão, agora decidido: era hora de buscar ajuda psiquiátrica também. Afinal, passar por triagem, senha, espera, cálculo e autodiagnóstico tudo em uma tarde… cansaria até Buda.

A atendente sorriu: — Senhor Jó_zé , o senhor está com a senha 149. Estamos atendendo a 678.

Jó_zé, com a calma de quem já transcendeu a lógica, respondeu: — Excelente. Ainda estou adiantado, levando-se em consideração o calendário maia.

Em tempo: Jó_zé  é, ao mesmo tempo, alguém e ninguém — um personagem que habita as margens do sentido, típico dos tempos em que a lógica escapa pelas frestas do cotidiano. Um nome nonsense para um mundo agitado em todos os sentidos, onde a própria noção de sentido, às vezes, também precisa ser reinventado: vide o noticiário em tempos de magnitsky.

 

ANTONIO CARLOS TÓRTORO
Ex-presidente da ARL – Academia Ribeirãopretana de Letras
www.tortoro.com.br
[email protected]

 

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