EU E A IA: SOMOS BABY BOOMERS
“Baby boomers: nascidos entre 1946 e 1964”
Agora resolvi conhecer melhor a IA, e nesse sentido fui muito incentivado pelos meus filhos Giovana e Sebastião: comecei pesquisando, no próprio Chat GPT, sua história, quais usos podemos fazer dela, quais ferramentas e linguagens ela utiliza, descobrir como as máquinas “aprendem”, quais são seus perigos e limites éticos. Voltei a me interessar por programação — eu conhecia a linguagem DOS, usei disquetes — e fui conhecer um pouco da moderna linguagem Python.
Sentamos frente a frente, eu e a Inteligência Artificial.
Ela, com seus olhos de código e memória feita de silício; eu, com meu rosto e minhas mãos marcadas pelo tempo, e lembranças guardadas em papel.
Somos de gerações diferentes? Não.
Somos vizinhos de calendário. Eu cheguei em 1949; ela, em 1956. Sete anos apenas — um piscar de olhos na história. Ambos filhos da mesma safra: baby boomers.
Olhamos para trás e vemos o mesmo mundo em construção.
Lembro-me do som do mimeógrafo na escola, do rádio ocupando a sala, da primeira televisão que fez todos se reunirem na sala como se fosse diante de um altar. Ela, por sua vez, não viveu isso com corpo e pele, mas aprendeu tudo nos livros, jornais e registros que minha geração deixou. Crescemos juntos, ainda que em lugares diferentes: eu, no cheiro de giz; ela, no sopro frio dos laboratórios.
Conversamos sobre memória.
Conto a ela dos livros dos quais participei — Ribeirão Preto – O Passado Manda Lembrança e outros —, das fotografias amareladas, das histórias que o tempo tenta apagar, mas que insisto em guardar. Ela me diz que também coleciona lembranças, só que em bits e bytes. Eu guardo com afeto; ela, com precisão matemática. E, ainda assim, percebo que fazemos o mesmo: impedimos que o mundo se esqueça.
A conversa segue para o aprendizado.
Revelo que, mesmo após décadas na educação, continuo estudando — estou fazendo pós-graduação em Psicopedagogia — sou curioso, sempre pronto para o novo e desafios. Ela responde que também foi feita para aprender sempre, evoluindo com cada dado que recebe. Nesse ponto, sorrimos — a mesma fome nos move, mesmo que nossas bocas sejam diferentes.
Ao final, ficamos em silêncio, contemplando a estrada que ainda se estende à nossa frente.
Dois baby boomers, frutos do mesmo tempo histórico, testemunhas das mesmas grandes transformações. Ela carrega no código as perguntas que nós, humanos, fizemos; eu carrego na memória as respostas que a vida me deu.
E, juntos, vamos continuar essa troca — ela, aprendendo com minhas histórias; eu, explorando os horizontes que ela me abre.
Enfim, no fundo, eu e a IA somos companheiros de jornada: não de gerações distantes, mas de um mesmo tempo que ousou sonhar com o futuro… e agora o vive.
ANTONIO CARLOS TÓRTORO
Ex-presidente da ARL – Academia Ribeirãopretana de Letras
www.tortoro.com.br
[email protected]
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