VAGÃO DA ESPERA NA ESTAÇÃO “COCOON”
“Quando a indesejada das gentes chegar…”
Poema “Consoada” – Manuel Bandeira
O calor é de outono, mas todos naquele lugar estão no inverno de suas existências.
Estamos numa pequena sala de espera: o Vagão da Espera.
Vinte idosos, todos acima dos setenta anos, ocupam silenciosamente as cadeiras alinhadas em ambos os lados da parede.
Nas mãos, cada qual segura sua senha como quem segura um pequeno documento de destino. Os olhos, quase em uníssono, permanecem voltados para a tela vermelha que, fria e impessoal, vai chamando um a um pelo número.
Minha senha é 347. A tela ainda anuncia o 320. Entre mim e o chamado, existe o tempo — esse velho companheiro que, na juventude, parecia correr, e agora gosta de se arrastar.
Cada novo idoso que entra no vagão, pega sua senha e revela no semblante um discreto desconforto. Dezenas estão à sua frente antes do atendimento. Não é apenas pela demora. É a consciência de que ali há muita gente reunida pela mesma razão: preservar o pouco ou o muito de vida que ainda pulsa.
Em outros tempos, filas assim poderiam significar festas, viagens, oportunidades. Agora, significam cuidado, prevenção, permanência.
À primeira vista, a cena poderia parecer sombria. Corpos mais lentos, cabelos embranquecidos, rostos marcados por décadas de batalhas invisíveis. A sensação inicial é a de que todos aguardam pela “indesejada das gentes”, visita que ronda as idades avançadas.
Mas não. Espera-se justamente o contrário: uma pequena picada de agulha que oferece resistência ao inevitável, uma defesa contra a ameaça da gripe Influenza, um gesto simples da ciência a favor da continuidade.
Figuras de branco entram e saem do recinto como guardiãs discretas dessa travessia. Chamam números, organizam filas, orientam braços a se descobrirem para a vacina. Há nelas algo de rotina e algo de sagrado. Para quem observa, a sala transforma-se em metáfora: lembra um vagão de trem.
Pessoas sentadas lado a lado, cada uma carregando sua história, seus medos, suas lembranças e seus silêncios. Um trem que segue para um destino inexorável, pois nenhum passageiro ignora que a viagem da vida tem estação final. Contudo, paradoxalmente, é também um trem de esperança: não corre para o fim, mas tenta adiar a chegada; não celebra a partida, mas valoriza cada quilômetro restante.
Naquela pequena sala, a existência se mostra em sua forma mais humana. Somos frágeis, dependemos uns dos outros, tememos o que nos ameaça e buscamos abrigo onde podemos encontrá-lo. Uma vacina, para muitos, é apenas um procedimento. Para quem já atravessou tantas décadas, pode ser um pacto silencioso com o amanhã.
Quando finalmente meu número se aproxima, levanto-me como quem desce de um trem após longa viagem. Dirijo-me para a sala indicada no painel. Recebo a picada breve, quase insignificante diante de tantas dores maiores já vividas.
Então sigo para fora do vagão, e da Estação Cocoon. Sigo para onde o mundo continua igual: ruas, carros, céu, ruídos, pressa. Mas algo mudou. Carrego comigo não apenas uma dose de imunização, e sim mais um pequeno crédito de esperança. Caminho rumo a mais um pouco de vida que me resta — e isso, para quem aprendeu o valor dos dias, já é muito.
ANTONIO CARLOS TÓRTORO
Ex-presidente da ARL – Academia Ribeirãopretana de Letras
www.tortoro.com.br
[email protected]
