GALHO SECO ATEMPORAL
Outro dia deparei-me com uma frase sobre decoração que me fez parar por alguns instantes.
Dizia que “a decoração com galhos secos e flores é atemporal, elegante e fácil de adaptar a diferentes estilos de ambientes. Com um visual natural e cheio de textura, esse tipo de arranjo valoriza desde espaços rústicos até propostas modernas e minimalistas, além de ser uma alternativa durável e acessível para renovar a casa.”
Sorri. Nunca imaginei que uma simples sugestão de decoração pudesse despertar uma reflexão tão profunda sobre a própria vida.
Na árvore genealógica de minha família, daqui a algumas décadas, eu também serei um galho seco.
Não serei avô.
Depois que eu partir, o meu ramo terminará em mim. Ao meu lado permanecerão apenas dois outros galhos, também secos: os de meus dois filhos, que igualmente não deixarão descendentes.
Nossa pequena ramificação encerrará ali sua missão biológica.
À primeira vista, isso poderia parecer triste. Afinal, costumamos acreditar que uma árvore só continua viva quando produz novos brotos.
Mas a natureza ensina outra coisa.
Há galhos secos que permanecem firmes por muitos e muitos anos. Sustentam ninhos, acolhem pássaros, desenham sombras, servem de abrigo ao musgo e, quando levados para dentro de uma casa, tornam-se obras de arte. Não florescem mais, mas continuam belos. Não geram novos frutos, mas conservam a memória da árvore que um dia alimentaram.
Talvez seja exatamente esse o meu destino.
Se não deixarei netos, espero deixar palavras.
Que meus poemas, minhas crônicas, meus artigos, minhas músicas, meus vídeos e, sobretudo, as vidas que toquei como educador sejam as flores que continuarão brotando sobre esse galho aparentemente seco.
A genealogia registra apenas o sangue.
A eternidade registra também as sementes invisíveis que espalhamos pelos corações.
Por isso, quando penso no futuro, não me entristece imaginar-me como um galho seco. Prefiro pensar que serei um galho seco atemporal.
Porque há ramos que deixam descendentes.
E há ramos que deixam legado.
Se Deus permitir, que eu pertença a esta segunda espécie. Afinal, uma árvore não vive apenas na direção de seus frutos. Ela também continua existindo na sombra que ofereceu, nas raízes que fortaleceu e na beleza silenciosa de seus galhos, mesmo quando já não florescem.
ANTONIO CARLOS TÓRTORO
Ex-presidente da ARL – Academia Ribeirãopretana de Letras
www.tortoro.com.br
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