MEU EPITÁFIO: AQUI JAZ UM ICEBERG DE FOGO
Vídeo do meu poema no Youtube: https://www.youtube.com/watch?v=w8KLiVM5slo&list=RDw8KLiVM5slo&start_radio=1
Há algum tempo escrevi um poema intitulado “Iceberg de Fogo”. Nele, talvez eu tenha conseguido traduzir, como nunca antes, quem realmente sou.
À primeira vista, um iceberg transmite a ideia de frieza, silêncio e distância. É uma enorme massa de gelo que revela apenas uma pequena parte de si, enquanto a maior parte permanece oculta sob as águas profundas. Sempre me identifiquei com essa imagem.
Durante toda a minha vida, muitas pessoas interpretaram meu comportamento como o de alguém frio, excessivamente racional ou reservado. Talvez porque eu tenha aprendido, ao longo das décadas, a vigiar minhas emoções, suportar dores em silêncio e enfrentar tempestades sem fazer delas um espetáculo. A superfície que os outros enxergam é calma. Mas ela representa apenas uma pequena fração de quem realmente sou.
Dentro de mim, porém, nunca houve gelo.
Sempre existiu um fogo intenso: o fogo da fé, da paixão pela educação, da poesia, da amizade, da família, da justiça e do amor ao próximo. Um fogo que raramente faz barulho. Não é um incêndio destruidor; é uma chama permanente que aquece minha existência.
Acredito que essa chama tem uma origem maior do que eu mesmo. É o Divino Espírito Santo habitando meu interior. Assim como em Pentecostes, essa presença não se manifesta apenas pelo calor, mas pela luz, pela inspiração e pela capacidade de continuar servindo mesmo quando o corpo envelhece e o mundo parece valorizar apenas aquilo que é visível.
Hoje vivo, como todos nós, navegando pelo imenso oceano de informações da Internet. Milhões de vozes gritam ao mesmo tempo. Poucos realmente escutam. Nesse oceano digital, sinto-me como um iceberg: carregando uma história enorme, construída ao longo de décadas de trabalho, de livros escritos, de poemas, de alunos, de amizades, de alegrias e sofrimentos. Grande parte dessa história permanece invisível para quem apenas passa por minha superfície.
Talvez seja essa a condição humana. Somos muito mais profundos do que aquilo que mostramos.
Escolher um epitáfio é resumir uma vida inteira em poucas palavras. Não gostaria que sobre minha lápide houvesse apenas datas ou títulos. Nenhum cargo, diploma ou honraria sobreviverá ao tempo. O que desejo deixar é uma imagem que desperte reflexão.
“Aqui jaz um iceberg de fogo.”
Quem ler essa frase poderá estranhar. Afinal, como pode existir um iceberg feito de fogo?
Mas justamente aí reside sua força. Ela revela o paradoxo que marcou minha existência: alguém que aparentava racionalidade o tempo todo, mas que carregava um coração ardente; alguém cuja voz era alta, porque sua alma nunca deixou de queimar de entusiasmo pela vida, pela arte, pela educação e por Deus.
O gelo representa aquilo que o mundo via. O fogo representa aquilo que Deus conhece.
Quando meu corpo repousar definitivamente, o iceberg terá cumprido seu destino. O gelo voltará ao oceano do tempo. Mas o fogo, esse não será sepultado. Porque a chama que vem do Espírito não pertence à matéria. Ela continua sua viagem, iluminando outras margens que ainda não conhecemos.
É por isso que desejo que, um dia, minha lápide traga apenas estas cinco palavras:
“Aqui jaz um iceberg de fogo.”
Elas dirão muito mais sobre mim do que qualquer biografia jamais poderia dizer.
ANTONIO CARLOS TÓRTORO
Ex-presidente da ARL – Academia Ribeirãopretana de Letras
www.tortoro.com.br
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