ARTIGO: VIKINGS INVADIRAM MINHA COPA

 

VIKINGS INVADIRAM MINHA COPA

 

Era uma tarde típica de inverno brasileiro: fria do lado de fora, quente por dentro da casa. A família inteira — a convite dos anfitriões/sobrinhos, Paulo Henrique e Mônica —, estava reunida para um churrasco de Copa do Mundo, daqueles em que a fumaça da churrasqueira parece fazer parte do ritual sagrado do futebol.
Uma única criança andava pelo quintal vestindo uma camiseta colorida, enquanto os adultos se espalhavam entre a varanda gourmet , a cozinha e a frente da televisão de 70 polegadas, que naquele dia assumira a função de altar nacional.
Em certo momento, alguém começou uma brincadeira curiosa:
— Quantas Copas você já viveu?
A pequena Helô, segurando um copo de refrigerante, respondeu orgulhosa:
— Eu tenho duas Copas!
Todos riram.
Um rapaz de vinte e poucos anos disse que tinha seis.
Outro, mais velho, anunciou nove.
Então olharam para mim.
Pensei alguns segundos antes de responder:
— Eu tenho vinte Copas do Mundo.
Houve um breve silêncio respeitoso, como se eu tivesse revelado não uma idade, mas uma travessia histórica.
Vinte Copas.
Vi o Brasil campeão em cinco delas. Vi Pelé transformar futebol em arte. Vi 1970 iluminar o planeta em cores douradas. Vi Romário em 94. Ronaldo em 2002. Vi lágrimas, abraços, buzinaços, ruas pintadas, fogos explodindo na madrugada.
Mas também vi quinze eliminações.
Vi sonhos morrerem em tardes cinzentas.
Vi gols impossíveis. Vi pênaltis perdidos.
Vi o silêncio pesado que invade uma casa depois de uma derrota brasileira.
Enquanto essas memórias atravessavam minha mente, corria livre a cerveja estupidamente gelada, os drinks coloridos, as carnes variadas, a maionese cuidadosamente preparada desde cedo, os pães de alho e as risadas confiantes de quem acreditava que, finalmente, o Hexa chegaria.
Sobre a mesa já aguardavam o pudim de leite condensado e o sorvete — porque brasileiro sempre prepara sobremesa como se preparasse esperança.
Então começou Brasil x Noruega, pelas oitavas de final da Copa do Mundo de 2026.
Nos primeiros minutos, tudo parecia sob controle. O Brasil tocava a bola com leveza. A torcida na televisão cantava. Na casa os comentários surgiam em coro:
— Agora vai!
— Esse ano ninguém segura!
— O Hexa chegou!
Mas futebol, às vezes, abre portais misteriosos: e Bruno Guimarães perdeu um pênalti.
De repente, parecia que o tempo havia se rompido.
O que entrou em campo já não era apenas a seleção da Noruega.
Era como se dracares vikings tivessem invadido nosso espaço saídos da tela da TV.
Onze guerreiros nórdicos avançavam como invasores vindos diretamente do século VIII, remando através de tempestades invisíveis. À frente deles vinha o terrível Haaland, Erling Haaland, uma espécie de comandante bárbaro de cabelos dourados, olhar gelado e força descomunal: um Arcturiano.
A varanda deixou de ser varanda.
Transformou-se numa aldeia de Njardarheimr sitiada.
O clima mudou instantaneamente.
Caiu água na cerveja. As carnes esfriaram sobre as travessas.
Ninguém mais tocava na maionese.
O som da narração da televisão misturava-se, em minha imaginação, ao ruído brutal das remadas vikings ecoando pelo ambiente.
Tum. Tum. Tum. Como tambores de invasão.
Cada ataque norueguês parecia uma embarcação atravessando os mares do Norte rumo ao nosso destino.
E então aconteceu.
O gol. Depois outro.
O silêncio tomou conta da casa.
O créu, Créu,  Créu, ficou preso na garganta.
Um silêncio antigo. Um silêncio que só quem viveu vinte Copas conhece.
Helô, álbum da Copa nas mãos, já não sorria.
Os adultos olhavam fixamente para a televisão como quem presencia a queda de um reino.
Do lado de fora, parecia que um vento frio de inverno soprava pelas frestas da varanda.
Dentro de mim, passou rapidamente o filme de todas as Copas anteriores.
Percebi, então, que envelhecer talvez seja isso: acumular não apenas vitórias, mas principalmente a memória das derrotas que sobrevivemos.
Ao final da partida, ninguém tocou imediatamente na sobremesa.
O pudim permaneceu intacto. O sorvete começou lentamente a derreter.
E enquanto os comentaristas falavam sobre “fim do sonho do Hexa”, eu apenas fiquei olhando, sem ver, para a tela, pensando que talvez o futebol seja a única guerra em que um país inteiro aceita sonhar junto, mesmo sabendo que o sofrimento quase sempre faz parte do resultado.
Lá fora, a noite caía.
E, em algum lugar imaginário entre os mares gelados da Escandinávia e as ruas e os quintais brasileiros, os dracares vikings retornavam lentamente para casa, levando consigo mais um derrotado sonho brasileiro.

Enquanto isso, nos incontáveis rincões do Brasil, famílias humildes, aprendiam mais geografia do que haviam aprendido na escola, e escolhiam nomes diferentes para seus futuros herdeiros, originando levas inteiras de “Ralans”, “Embapês”, “Salás”, “Lamines”, “Vinis”, “Méssis”, “Cristianos”, “Queines”, “Môdriquis”, que  surgirão futuramente como legados da Copa sem Hexa.

 

 

ANTONIO CARLOS TÓRTORO
Ex-presidente da ARL – Academia Ribeirãopretana de Letras
www.tortoro.com.br
[email protected]

ARL- ACADEMIA RIBEIRÃOPRETANA DE LETRAS, ARTIGOS, FOTOGRAFIA, LITERATURA, QUEM SOU, SOCIAIS

Deixe um comentário