UTILIDADE NA VELHICE
Hoje, li um artigo na Internet em que o autor conclui que a velhice “talvez seja a fase da vida em que temos a melhor oportunidade de nos tornar, enfim, quem passamos tantos anos tentando esconder”.
Não é meu caso: nunca tentei esconder quem eu fui, sou e serei.
Talvez a velhice me incomode não por causa das rugas, dos cabelos brancos ou das limitações do corpo. Talvez ela me incomode porque sempre vivi intensamente sendo útil.
Nunca escondi meus sentimentos. Nunca vivi atrás de máscaras sociais. Jamais abandonei meus sonhos por conveniência ou medo. Sempre expus minhas dores, minhas fragilidades, meus medos e minhas indignações em meus artigos, em minhas conversas e em minhas decisões de vida. E, justamente por isso, muitas vezes paguei um preço alto por minha autenticidade.
Nunca fui alguém moldado para agradar a todos.
Sempre preferi a clareza à hipocrisia. A verdade ao silêncio conveniente. A coragem à acomodação.
Por isso, não consigo me reconhecer naquela ideia de que a velhice seria o momento de finalmente nos tornarmos quem realmente somos. Eu sempre procurei ser quem sou.
Talvez minha dor seja outra.
Talvez o que me fira seja perceber que continuo me sentindo vivo por dentro — cheio de ideias, reflexões, experiência, vontade de servir, de ensinar, de escrever e de participar — enquanto o mundo parece começar a olhar para mim como alguém que já cumpriu sua função.
Esse talvez seja o frio mais difícil da velhice: não o frio do corpo, mas o da invisibilidade.
Passei a vida sendo necessário: a alunos, a famílias, a colegas, à educação, à cultura, às instituições das quais participei.
Meu ministério sempre foi servir.
E talvez seja exatamente por isso que me dói tanto a sensação de inutilidade. Não porque eu realmente tenha perdido meu valor, mas porque diminuíram os espaços onde minha presença era solicitada, ouvida e necessária.
O educador dentro de mim não envelheceu. O escritor dentro de mim continua querendo comunicar. O orientador continua querendo orientar. O ser humano continua querendo tocar vidas.
Talvez eu esteja aprendendo, da maneira mais difícil, que existe diferença entre ser útil operacionalmente e ser significativo existencialmente.
Mas confesso: há dias em que essa diferença ainda pesa profundamente dentro de mim.
ANTONIO CARLOS TÓRTORO
Ex-presidente da ARL – Academia Ribeirãopretana de Letras
www.tortoro.com.br
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