MISTER ANCELOTTI E O HINO NACIONAL BRASILEIRO
Há gestos que ultrapassam o protocolo e alcançam dimensões simbólicas profundas.
Um deles ocorreu quando o técnico italiano , à frente da seleção brasileira de futebol , cantou o Hino Nacional Brasileiro, ao lado dos jogadores, e com o público presente, antes de uma partida da Copa do Mundo.
À primeira vista, poderia parecer apenas um detalhe cerimonial. Mas não foi. Na verdade, tratou-se de um gesto carregado de significado humano, cultural e espiritual.
Cantar o hino de um país representa muito mais do que repetir versos decorados. O hino é a voz simbólica de um povo. Nele estão condensadas a memória histórica, os sofrimentos coletivos, os sonhos nacionais, os valores, as conquistas e até mesmo as esperanças de gerações inteiras. Quando alguém canta um hino nacional com respeito e emoção, está, de certa forma, reconhecendo a alma daquela nação.
Por isso, ver um estrangeiro — e especialmente alguém da dimensão internacional de Ancelotti — cantar o hino brasileiro ao lado dos atletas causou impacto tão positivo em milhões de brasileiros. Não porque ele tivesse obrigação de fazê-lo, mas justamente porque não tinha. O valor do gesto reside exatamente na espontaneidade respeitosa.
Naquele instante, o treinador não era apenas um profissional contratado para dirigir uma equipe. Tornava-se alguém disposto a honrar a identidade cultural do povo que o acolheu. E isso possui enorme grandeza moral.
Vivemos tempos em que símbolos nacionais muitas vezes são tratados com indiferença, ironia ou superficialidade. Por isso, atitudes assim recuperam algo essencial: o respeito. Respeito à história de um país. Respeito ao sentimento coletivo de seu povo. Respeito à camisa vestida pelos atletas. Respeito à emoção de milhões de torcedores.
O gesto de Ancelotti revelou também uma compreensão rara do futebol. O futebol não é apenas tática, preparo físico ou estratégia.
Especialmente no Brasil, ele é emoção popular, memória afetiva e patrimônio cultural. Ao cantar o hino brasileiro, ele demonstrou entender que dirigir a seleção brasileira significa também entrar em contato com a sensibilidade de uma nação inteira.
Há algo profundamente elegante quando alguém vindo de outra cultura reconhece a dignidade da cultura que o recebe. Isso não diminui sua identidade italiana; ao contrário, engrandece-a. Porque o verdadeiro espírito universal nasce justamente da capacidade de respeitar aquilo que pertence ao outro.
Talvez por isso a cena tenha emocionado tantas pessoas. Não se tratava apenas de futebol. Tratava-se de humanidade. De integração. De humildade diante dos símbolos de um povo.
Em um mundo frequentemente marcado pela arrogância, pelo individualismo e pela intolerância cultural, ver um técnico estrangeiro cantar com serenidade e respeito o hino nacional brasileiro tornou-se uma pequena, porém poderosa, lição de civilidade.
E talvez seja exatamente isso que os grandes gestos possuem em comum: eles são simples, silenciosos e profundamente humanos.
ANTONIO CARLOS TÓRTORO
Ex-presidente da ARL – Academia Ribeirãopretana de Letras
www.tortoro.com.br
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