QUANDO OS ANIMAIS NOS ENSINAM A PAZ
Sinal dos tempos? Mensagem divina?
Há notícias que parecem pequenas diante das grandes manchetes do mundo. Não falam de guerras, eleições, economia ou catástrofes. Contam apenas histórias de animais.
Mas, às vezes, justamente nessas pequenas histórias existe uma pergunta imensa.
Recentemente, uma delas chamou minha atenção: Maya, uma Golden Retriever, acolheu três gansinhos órfãos. Mais do que simplesmente tolerá-los, tornou-se referência para os pequenos e estabeleceu com eles um vínculo tão forte que, segundo a reportagem, chegou a ensiná-los a voar.
Uma cadela e três gansos.
Espécies diferentes. Corpos diferentes. Instintos diferentes. Linguagens diferentes.
E, no entanto, juntos.
Não é um caso isolado. Com frequência aparecem histórias e imagens de animais de espécies distintas convivendo de maneira surpreendente: cães que adotam gatos, gatos que protegem filhotes de outras espécies, animais que brincam com aqueles que, segundo a lógica da natureza, deveriam evitar — e, em circunstâncias excepcionais, até relações que nos parecem improváveis entre espécies tradicionalmente vistas como adversárias.
É evidente que não devemos romantizar a natureza. Ela também é disputa, território, sobrevivência, caça e morte. Um gato continua sendo predador natural de pequenos roedores; um cão não deixa de possuir seus instintos porque acolheu outro animal.
Mas talvez seja exatamente aí que esteja a beleza da exceção.
Se até onde existe diferença pode nascer vínculo, por que entre os homens a diferença precisa produzir ódio?
Olho para Maya e seus três pequenos companheiros e penso na humanidade.
Penso em palestinos e judeus. Penso em russos e ucranianos. Penso em norte-americanos e iranianos. Penso em povos separados por fronteiras, religiões, ideologias, línguas, memórias históricas e feridas acumuladas durante gerações.
Somos todos da mesma espécie.
Temos praticamente a mesma estrutura biológica. Choramos pela morte de nossos filhos. Abraçamos aqueles que amamos. Sentimos medo. Temos fome. Queremos voltar para casa. Desejamos proteger nossas famílias. Sonhamos com o amanhã.
E, apesar disso, inventamos extraordinárias razões para não convivermos.
Talvez tenhamos construído tantas classificações — nacionalidade, religião, partido, raça, território, ideologia — que esquecemos a classificação primeira: somos humanos.
É curioso imaginar que um animal não pergunta ao outro qual é sua nacionalidade.
Maya não perguntou aos gansinhos de onde vieram. Não perguntou no que acreditavam. Não investigou a história de seus antepassados. Não exigiu reciprocidade diplomática.
Diante de três criaturas vulneráveis, simplesmente aconteceu algo que nós, humanos, chamamos de acolhimento.
E aqui começo a enxergar algo além da biologia.
Não como prova científica da existência de Deus — seria inadequado transformar uma bela história animal numa demonstração teológica —, mas como símbolo.
Para quem acredita no Criador, a natureza sempre permitiu uma segunda leitura. Uma árvore pode ser apenas uma árvore — e também ensinar sobre raízes. Um rio pode ser apenas água correndo — e também ensinar que a vida não permanece imóvel. Uma semente pode ser apenas um mecanismo biológico — e também representar ressurreição, esperança e continuidade.
Da mesma maneira, uma Golden Retriever protegendo três gansinhos pode ser apenas um comportamento animal extraordinário.
Ou pode tornar-se uma parábola diante de nossos olhos.
Talvez Deus não precise escrever mensagens no céu. Talvez algumas estejam caminhando sobre quatro patas. Talvez outras estejam aprendendo a voar.
Enquanto os homens constroem muros, a natureza ocasionalmente constrói pontes improváveis.
Enquanto discutimos quem tem direito à terra, ao território e à verdade, animais que não conhecem nossos tratados diplomáticos simplesmente encontram maneiras de compartilhar o mesmo espaço.
E então surge a pergunta incômoda:
será que estamos nos considerando inteligentes demais para aprender com eles?
A inteligência humana produziu poemas, sinfonias, vacinas, telescópios, computadores e máquinas capazes de atravessar o espaço.
Mas também produziu trincheiras, campos de concentração, bombas atômicas, drones de guerra e armas capazes de destruir cidades inteiras.
Talvez nossa maior evolução ainda não tenha acontecido.
Não será tecnológica.
Será moral.
Será o dia em que compreenderemos que conviver não significa concordar com tudo. A paz não exige que desapareçam as diferenças. Palestinos não precisam deixar de ser palestinos. Judeus não precisam deixar de ser judeus. Russos não precisam deixar de ser russos. Ucranianos não precisam deixar de ser ucranianos. Povos não precisam abandonar sua história para reconhecer a humanidade do outro.
Paz é outra coisa. É permitir que o outro exista. É reconhecer no rosto daquele que chamamos de inimigo alguém que também possui mãe, pai, filhos, saudades, medos e sonhos.
Talvez seja essa a mensagem escondida nessas histórias que tanto nos emocionam.
Não sei se estamos diante de um sinal dos tempos.
Não sei se podemos chamar isso de mensagem divina.
Mas sei que podemos transformar esses acontecimentos em espelhos.
E, olhando para eles, perguntar: se seres tão diferentes conseguem, em determinadas circunstâncias, superar a barreira da espécie para acolher, proteger e conviver, por que nós, pertencentes à mesma humanidade, insistimos tantas vezes em fazer da diferença uma sentença de guerra?
Maya acolheu três gansinhos órfãos.
Talvez pareça pouco diante dos conflitos do planeta.
Mas três pequenas aves seguindo uma cadela carregam uma imagem poderosa: ninguém perguntou quem era diferente. Alguém apenas percebeu quem precisava de cuidado.
Talvez a paz comece exatamente assim.
E talvez o Criador, de vez em quando, escolha os seres que não sabem falar para dizer aos homens aquilo que, há milhares de anos, eles ainda não conseguiram compreender: é possível viver juntos.
ANTONIO CARLOS TÓRTORO
Ex-presidente da ARL – Academia Ribeirãopretana de Letras
www.tortoro.com.br
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