EU E AS REFLEXÕES DE ANAÏS NIN
A escritora Anaïs Nin deixou uma reflexão que atravessa gerações pela profundidade e pela verdade humana que carrega: “A vida encolhe ou expande na proporção da coragem.” Poucas frases conseguem traduzir tão bem aquilo que ocorre silenciosamente dentro de nós quando somos colocados diante de decisões difíceis, inesperadas ou arriscadas.
Ao longo da vida, muitas vezes somos obrigados a escolher entre a segurança daquilo que já conhecemos e o salto incerto rumo ao desconhecido. É exatamente nesses momentos que a coragem deixa de ser uma palavra abstrata e passa a ser uma atitude concreta, capaz de alterar destinos inteiros.
Em minha trajetória educacional, vivi pelo menos dois episódios marcantes em que precisei decidir rapidamente para não perder oportunidades que poderiam jamais voltar.
O primeiro aconteceu quando aceitei lecionar no curso de Contabilidade do Instituto Metodista. As disciplinas eram Matemática Comercial, Matemática Financeira e Estatística. Eu dominava profundamente a Matemática do Ensino Médio tradicional, mas não possuía experiência específica com a Matemática Aplicada exigida naquele contexto profissionalizante.
Poderia ter recusado por medo. Poderia ter alegado falta de preparo. Poderia ter esperado “o momento ideal”, que muitas vezes nunca chega.
Mas aceitei.
E, a partir daquele instante, começou uma verdadeira corrida contra o tempo. Fiz rapidamente um curso de Contabilidade à distância e adquiri dois livros de Estatística que passei a estudar quase de forma convulsiva, madrugada adentro, enquanto simultaneamente ministrava as aulas. Aprendia estudando e ensinando ao mesmo tempo. Foi um período intenso, cansativo, mas extraordinariamente transformador.
O segundo momento ocorreu no SENAI. Assumi aulas de Matemática e Ciências voltadas para cursos práticos e técnicos, embora jamais tivesse ensinado Ciências anteriormente. Eu possuía sólida formação em Matemática e Física, mas precisava adaptar conhecimentos, linguagem e metodologias para uma realidade educacional muito específica e dinâmica.
Mais uma vez, havia o risco.
Mais uma vez, havia o medo silencioso de não corresponder.
Mas havia também algo maior: a percepção de que certas portas aparecem apenas uma vez em nossas vidas.
Hoje, olhando para trás após mais de meio século dedicado ao magistério, à orientação educacional e à formação humana, compreendo com clareza que, se eu não tivesse tido coragem naqueles momentos, minha vida certamente teria “encolhido”, exatamente como descreveu Anaïs Nin.
Talvez eu tivesse permanecido apenas dentro dos limites confortáveis daquilo que já dominava. Talvez tivesse evitado noites difíceis, inseguranças e desafios. Porém, também teria perdido crescimento, experiência, amadurecimento e inúmeras realizações que vieram justamente porque aceitei caminhar por territórios desconhecidos.
A coragem não significa ausência de medo. Significa agir apesar dele.
Muitas das grandes conquistas humanas nascem dessa disposição íntima de enfrentar o improvável, estudar mais, trabalhar mais, adaptar-se e aprender continuamente. A vida raramente se expande para aqueles que permanecem eternamente aguardando garantias absolutas.
No cotidiano, essa reflexão de Anaïs Nin permanece extremamente útil. Ela serve para o jovem que precisa escolher uma profissão, para o professor que aceita novos desafios, para o trabalhador que precisa reinventar-se, para o idoso que decide continuar aprendendo, e para qualquer pessoa que se encontre diante de uma decisão importante.
Porque, no fundo, viver é isso: expandir-se apesar das incertezas.
E quase sempre as maiores realizações da existência começam exatamente no instante em que alguém decide ter coragem.
ANTONIO CARLOS TÓRTORO
Ex-presidente da ARL – Academia Ribeirãopretana de Letras
www.tortoro.com.br
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