ARTIGO: TRIO PROTETOR

 

TRIO PROTETOR

 

 

Em diferentes culturas e tradições espirituais, a humanidade costuma reconhecer as mesmas forças simbólicas sob nomes distintos. Aquilo que muda é a linguagem religiosa, a forma de culto, os símbolos utilizados e a maneira como cada povo interpreta o sagrado. É dentro dessa perspectiva que muitas pessoas identificam, no imaginário popular e espiritual brasileiro, uma profunda aproximação entre Santo Antônio, São Jorge e Ogun, compreendendo-os como manifestações diferentes de um mesmo arquétipo espiritual: o protetor, o guerreiro e o abridor de caminhos.

No catolicismo popular, Santo Antônio é conhecido como o santo das causas difíceis, da proteção familiar, da prosperidade e da ajuda aos necessitados. Sua imagem sempre esteve ligada à caridade, ao acolhimento e à capacidade de auxiliar aqueles que se encontram perdidos material ou espiritualmente. Mas existe também, em torno de Santo Antônio, uma dimensão menos conhecida: a de defensor firme da fé e combatente espiritual. Em antigas representações religiosas, ele aparece enfrentando tentações, combatendo forças negativas e defendendo os humildes.

Já São Jorge, talvez um dos santos mais populares do mundo cristão, tornou-se símbolo universal da coragem diante do mal. Montado em seu cavalo branco e enfrentando o dragão, representa a vitória da luz sobre as trevas, da justiça sobre a violência, da fé sobre o medo. Seu culto ultrapassou fronteiras religiosas e nacionais exatamente porque sua imagem fala diretamente ao inconsciente humano: todos possuem dragões interiores para enfrentar.

Nas religiões de matriz africana, especialmente na Umbanda, Ogun é o orixá guerreiro, senhor dos caminhos, do ferro, da tecnologia, do trabalho e das batalhas da vida. Ogun é aquele que abre estradas onde antes não havia passagem. É a força da coragem, da disciplina e da ação. Não representa apenas a guerra física, mas principalmente a luta cotidiana do ser humano para sobreviver, vencer obstáculos e seguir adiante.

Quando observamos essas três figuras espirituais sob um olhar simbólico e cultural, percebemos que existem inúmeros pontos de convergência entre elas. Todas estão associadas à proteção. Todas representam força espiritual. Todas aparecem ligadas ao combate contra o mal, à abertura de caminhos e ao auxílio aos aflitos. Em diferentes linguagens religiosas, cada uma delas expressa o mesmo anseio humano por amparo, coragem e esperança.

No Brasil, esse encontro de símbolos ganhou ainda mais força através do sincretismo religioso. Durante séculos, africanos escravizados precisaram ocultar o culto aos seus orixás sob imagens católicas para preservar suas crenças diante da perseguição religiosa. Assim, Ogun passou a ser associado a São Jorge em muitas regiões do país. Em alguns contextos populares, elementos ligados a Santo Antônio também acabaram incorporados a esse mesmo campo simbólico de proteção, auxílio espiritual e abertura de caminhos.

Importante compreender que dizer que “são o mesmo personagem” não significa afirmar que as religiões sejam idênticas ou que suas doutrinas se confundam completamente. Cada tradição possui sua própria teologia, sua história, seus ritos e sua visão do mundo. O que existe é uma aproximação simbólica, espiritual e humana. É o reconhecimento de que povos diferentes, em épocas diferentes, muitas vezes criaram imagens semelhantes para representar forças universais da existência.

Talvez isso revele algo profundamente belo sobre a espiritualidade humana: por trás das diferenças religiosas, existe uma busca comum. O homem sempre procurou proteção contra o sofrimento, coragem diante das batalhas da vida e esperança para continuar caminhando. Seja acendendo uma vela para Santo Antônio, fazendo uma oração a São Jorge ou saudando Ogun nos terreiros, milhões de pessoas, no fundo, procuram a mesma coisa: força para seguir adiante.

Num mundo tantas vezes dividido pelo fanatismo e pela intolerância, compreender essas pontes simbólicas entre diferentes tradições pode nos ensinar algo essencial: o sagrado fala muitas línguas, veste muitas roupas e recebe muitos nomes, mas frequentemente toca os mesmos sentimentos humanos universais.

 

ANTONIO CARLOS TÓRTORO
Ex-presidente da ARL – Academia Ribeirãopretana de Letras
www.tortoro.com.br
[email protected]

 

ARL- ACADEMIA RIBEIRÃOPRETANA DE LETRAS, ARTIGOS, LITERATURA, QUEM SOU

Deixe um comentário