ARTIGO: O FRIO QUE NÃO PASSA

 

O FRIO QUE NÃO PASSA

 

Nesta semana, o inverno resolveu mostrar sua força. As manhãs amanheceram cobertas por aquele silêncio gelado que parece endurecer até os pensamentos. As pessoas saíram às ruas escondidas sob casacos pesados, cachecóis, luvas e gorros improvisados. Nos semáforos, vendedores ofereciam cobertores. Nos telejornais, especialistas alertavam sobre a queda brusca da temperatura.

Debaixo de cobertas, tomando um chocolate quente, e assistindo ao jogo da seleção brasileira de futebol, na Copa 2026, pensei comigo mesmo que talvez existam frios muito piores.

O frio do inverno castiga o corpo, é verdade. Faz doer as mãos, ressecar a pele, estremecer os ossos. Mas há um frio invisível que dói muito mais: a frieza das pessoas.

Esse frio não vem do vento sul, nem das massas polares. Ele nasce dentro dos corações.

É o frio dos olhares indiferentes. O frio dos amigos que desaparecem justamente quando mais precisamos deles. O frio dos silêncios inexplicáveis. O frio das mensagens nunca respondidas. O frio das visitas que jamais acontecem. O frio daqueles que sabem da doença, da tristeza, da depressão, das perdas como as das catástrofe que atinge nossos irmãos venezuelanos, e mesmo assim seguem adiante como se nada estivesse acontecendo.

Para o inverno existe solução. Um cobertor aquece. Um café quente conforta. Um aquecedor ameniza as noites mais difíceis.

Mas o que aquece uma alma ferida pela indiferença?

Quem consegue aquecer o espírito de alguém mergulhado numa tristeza profunda? Quem consegue devolver esperança a quem lentamente perdeu a fé nos próprios semelhantes?

Há dores emocionais que não aparecem em exames. Não provocam febre. Não deixam hematomas visíveis. Entretanto, consomem silenciosamente por dentro.

Muitas vezes, o deprimido não precisa de discursos brilhantes. Precisa apenas sentir que ainda existe para alguém. Precisa perceber que sua ausência seria notada. Que sua dor importa. Que sua existência possui significado.

Mas o mundo moderno parece ocupado demais para enxergar sofrimentos silenciosos.

Vivemos cercados de conexões digitais e desertos emocionais. Nunca houve tantas formas de comunicação, e talvez nunca tenha sido tão difícil encontrar verdadeira presença humana.

O inverno acabará em alguns meses. A primavera chegará trazendo flores, cores novas e tardes mais suaves. O sol voltará a aquecer as calçadas, os jardins e os telhados das casas.

Mas existem pessoas que carregam dentro de si um inverno que não termina nunca.

Porque certos frios não dependem da estação do ano. Dependem da ausência de afeto. Da falta de empatia. Da brutal indiferença humana.

E esse vento gelado, quando entra na alma, continua soprando mesmo depois que todas as flores da primavera já nasceram do lado de fora.

 

ANTONIO CARLOS TÓRTORO
Ex-presidente da ARL – Academia Ribeirãopretana de Letras
www.tortoro.com.br
[email protected]

 

 

 

 

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