ARTIGO: O COMETA

 

O COMETA

Às vezes, quando paro para analisar minha passagem pela vida, sinto-me um cometa.

A Terra sempre foi o meu Sol.

É em torno dela que, misteriosamente, minha trajetória parece acontecer. Não sei de onde vim antes de iniciar essa longa viagem pelo Universo. Também não sei para onde seguirei quando completar minha última órbita. Apenas sei que estou em movimento.

Um cometa nunca retorna exatamente igual. A cada aproximação do Sol, perde um pouco de si e, ao mesmo tempo, revela uma beleza diferente.

Assim também acontece comigo.

Em cada passagem pela vida, fui deixando pequenas partículas de minha própria existência. Algumas receberam o nome de filhos e familiares. Outras se transformaram em amigos, alunos, colegas de trabalho, vizinhos, leitores e pessoas que cruzaram meu caminho por poucos minutos, mas que, de algum modo, carregaram consigo um fragmento de quem fui.

Também eu conservei partículas de todos eles. Somos feitos das pessoas que amamos e até daquelas com quem apenas dividimos um instante da caminhada.

Nenhuma órbita foi igual à anterior. Houve tempos de brilho intenso, quando parecia iluminar o céu de quem estava por perto. Houve tempos de tempestades, de perdas, de doenças, de despedidas e de silenciosas noites em que apenas continuei viajando, confiando que o Universo conhecia o caminho melhor do que eu.

Hoje compreendo que talvez o verdadeiro sentido da existência não seja chegar a algum lugar, mas deixar um rastro de luz enquanto atravessamos a escuridão.

E imagino que, um dia, acontecerá minha última passagem.

O velho cometa deixará de ser corpo sólido. Transformar-se-á numa imensa nuvem de poeira cósmica, invisível aos olhos, mas ainda presente no espaço que percorreu.

Então, cada vez que uma oração cortar meu caminho, essa poeira voltará a refletir a luz.

Talvez seja isso que chamamos de saudade.

Talvez seja isso que alguns chamem de eternidade.

Porque os cometas passam.

Mas a luz que refletem continua viajando pelo Universo muito depois de desaparecerem de nossos olhos.

 

ANTONIO CARLOS TÓRTORO
Ex-presidente da ARL – Academia Ribeirãopretana de Letras
www.tortoro.com.br
[email protected]

 

ARL- ACADEMIA RIBEIRÃOPRETANA DE LETRAS, ARTIGOS, LITERATURA, QUEM SOU

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