EGRÉGORA DIGITAL
“ Uma homenagem aos meus amigos, com os quais mantenho contatos diários via mídias sociais”
Todos os dias quando acordo e, antes mesmo de o café terminar de perfumar a casa, já estou conectado ao mundo.
Recebo mensagens. Envio mensagens. Leio comentários. Respondo. Publico um vídeo/poema, uma fotografia, uma crônica, uma lembrança ou uma simples reflexão. Facebook, Instagram, Tik-Tok, YouTube… cada plataforma tornou-se uma pequena praça onde encontro rostos que, muitas vezes, nunca vi pessoalmente, mas que já fazem parte da minha rotina.
São quase sempre as mesmas pessoas.
Sem perceber, fomos formando uma verdadeira egrégora digital: uma comunidade invisível, unida não por paredes ou ruas, mas por ideias, sentimentos, palavras e afetos. É dessa egrégora que, hoje, me alimento mental e emocionalmente durante quase todo o dia.
Talvez isso aconteça porque, com o passar dos anos, meu círculo de amizades físicas tenha diminuído sensivelmente. A idade possui essa estranha característica: amplia as lembranças e reduz os encontros. Muitos amigos partiram para outras cidades. Outros partiram para outro plano de existência. Alguns simplesmente desapareceram no ritmo acelerado da vida.
Em compensação, a internet aproximou pessoas que talvez jamais se encontrassem em outro tempo da História.
Ao longo da vida conheci milhares de pessoas. Convivi com gente de todas as classes sociais, de diferentes profissões, culturas e crenças. Professores, alunos, artistas, fotógrafos, escritores, médicos, operários, empresários, religiosos, políticos e trabalhadores anônimos. Muitos ficaram apenas como fotografias desbotadas no grande álbum da memória. Seus rostos, nomes e vozes acabaram perdidos no emaranhado de recordações que o tempo insiste em embaralhar.
Curiosamente, de vez em quando, algum deles reaparece sem aviso. Basta uma música, um perfume, uma fotografia antiga ou uma frase para que volte inteiro à minha lembrança, como se jamais tivesse partido.
Há, porém, pessoas que nunca foram embora.
São aquelas que marcaram profundamente minha existência. Companheiros das escolas onde trabalhei, das academias literárias, dos grupos fotográficos, das reuniões culturais e dos tantos ambientes por onde caminhei ao longo de décadas. Alguns já nem estão entre nós. Outros seguem vivos, embora distantes. Mas todos permanecem intensamente presentes dentro de mim.
Talvez a verdadeira imortalidade não esteja apenas na continuidade da alma, mas também na capacidade de permanecer vivo dentro da memória afetiva de alguém.
Essas pessoas continuam participando silenciosamente das minhas decisões, das minhas lembranças, dos meus textos e até dos meus silêncios. Ainda conversam comigo, mesmo sem palavras.
Por isso acredito que essa minha egrégora não é formada apenas pelos amigos virtuais que diariamente compartilham mensagens comigo. Ela também é composta pelos que caminharam ao meu lado em algum momento da vida e deixaram em mim uma marca indelével.
No fundo, todos nós somos a soma das pessoas que amamos, admiramos ou simplesmente encontramos pelo caminho.
Enquanto houver alguém capaz de lembrar de nós com carinho, continuaremos existindo na egrégora vital da humanidade.
E talvez seja exatamente isso que chamamos de eternidade.
ANTONIO CARLOS TÓRTORO
Ex-presidente da ARL – Academia Ribeirãopretana de Letras
www.tortoro.com.br
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