O COLCHÃO
Sou do tempo em que colchão era apenas… um colchão.
Sua única missão na Terra consistia em receber um lençol, um travesseiro e um ser humano cansado. Não existia “engenharia do sono”, “tecnologia aeroespacial aplicada ao descanso”, “espuma inteligente”, “molas ensacadas individualmente”, “tecido termorregulador”, “camadas viscoelásticas”, “suporte ortopédico de sete zonas” nem qualquer outra invenção que faz o consumidor sentir que está comprando uma nave espacial em vez de um lugar para dormir.
Durante séculos, aliás, a história dos colchões foi bem mais simples. Os antigos dormiam sobre folhas, peles de animais e montes de palha. Depois vieram os sacos recheados de lã, algodão, penas e crina de cavalo. No século XIX surgiram as primeiras molas metálicas. No século XX apareceram as espumas, os colchões ortopédicos e, mais tarde, as famosas molas ensacadas. No século XXI, comprar um colchão passou a exigir quase um curso de Engenharia Mecânica, outro de Química dos Polímeros e uma pós-graduação em Marketing.
Hoje ninguém vende colchão: vendem experiências sensoriais.
Depois de alguns anos, resolvi substituir o meu velho companheiro de cama box de casal, modelo plus size. Foi uma decisão tomada após dores no corpo e infinitas consultas a vendedores, sites especializados, vídeos na internet, comparações de densidade, altura, bordas reforçadas, certificações, promoções e parcelas que pareciam financiamento imobiliário. Aquele colchão usado não era apenas um móvel: era um pedaço da minha história.
Posso afirmar que foi nele que eu, “Siegmund”, e minha “Sieglinde”, Lu, vivemos— nos nossos gloriosos tempos de plena saúde física — memoráveis Cavalgadas de Valquírias: Wagner, certamente, aprovaria a trilha sonora. Se aquele colchão pudesse falar, talvez pedisse censura para menores de dezoito anos.
Finalmente chegou o dia da troca pelo novo. Foi então que descobri que comprar um colchão novo era a parte fácil, mas o verdadeiro desafio era retirar o antigo do quarto.
Nunca imaginamos, Lu e eu, que um objeto aparentemente inofensivo pudesse pesar tanto. Era como tentar mover um pequeno prédio de um metro cúbico, recheado de molas ensacadas, espuma, tecidos tecnológicos e, provavelmente, um núcleo de matéria escura.
Foram necessários empurrões, gemigos, puxões, cálculos geométricos, mudanças de ângulo e algumas palavras pouco elegantes para que o velho gigante atravessasse portas, corredores e finalmente deixasse o quarto.
A entrada do novo foi outro espetáculo também trágico, se não fosse cômico.
Acho que foi a primeira vez em que percebi que os arquitetos deveriam projetar casas depois de carregar um colchão king size casa adentro.
Hoje o colchão aposentado encontra-se solenemente instalado na garagem.
Está em pé, apoiado sobre um dos lados, equilibrado sobre um banco de madeira, numa pose quase filosófica: parece um antigo cavaleiro medieval aguardando seu destino.
Toda vez que entro na garagem ele me encara em silenciosa cobrança, como quem pergunta:
— E então? Vai fazer o quê comigo?
Confesso que ainda não sei. Não cabe no carro. Não passa despercebido. Não desaparece sozinho.
Enquanto isso, continuo esperando que algum descendente artístico do inesquecível Mister M, aquele mágico do Fantástico que fazia aviões, estátuas e monumentos desaparecerem na televisão no fim dos anos 1990, resolva visitar minha garagem.
Bastaria um pano preto. Uma música dramática. Algumas bombas de fumaça. E, num passe de mágica…o colchão sumiria para sempre.
Até lá, ele permanece ali. Quieto. Imóvel. Majestoso.
É o único colchão do mundo que, depois de aposentado, continua tirando o meu sono, e aguardando pelo momento de sua doação.
ANTONIO CARLOS TÓRTORO
Ex-presidente da ARL – Academia Ribeirãopretana de Letras
www.tortoro.com.br
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