ARTIGO: OS MÚLTIPLOS DE OITO EM MINHA VIDA

 

OS MÚLTIPLOS DE OITO EM MINHA VIDA

Não sei se Deus escreve a história dos homens com letras, estrelas ou números: talvez com os três.

Durante muitos anos, as datas foram, para mim, apenas pequenas legendas da existência. Nascimento. Casamento. Formatura. Fundação de uma instituição. Publicação de um livro. Premiações. Alegrias. Perdas: um calendário, apenas.

Mas, à medida que os anos foram se acumulando — e hoje eles já se aproximam de setenta e sete — comecei a perceber que alguns números pareciam insistir em reaparecer em minha caminhada, como velhos amigos que surgem inesperadamente nas esquinas da memória: foi assim que reencontrei o oito.

Na numerologia pitagórica, a soma dos algarismos de minha data de nascimento — 22 de agosto de 1949 — resulta em oito. Curiosamente, a data de meu casamento com minha querida Lu, em 18 de dezembro de 1976, conduz exatamente ao mesmo número: sorri quando fiz esses cálculos.

Não porque imagine que um número possa decidir o destino de alguém. A vida é complexa demais para caber dentro de uma operação matemática. Mas porque gosto da linguagem dos símbolos. Eles não explicam a realidade; apenas lhe emprestam alguma poesia.

Então comecei a folhear minha própria história.

E descobri que agosto, mês 8, parecia ter feito residência permanente em minha biografia.

A Academia Ribeirãopretana de Educação, que tive a alegria de fundar e presidir em seus primeiros anos, nasceu em agosto.

Meu bisavô Andrea casou-se na Itália também em agosto de 1872.

Minha irmã Rita Maria nasceu em agosto.

Padre Euclides, patrono de minha cadeira número 8 na Academia de Letras e Artes de Ribeirão Preto, veio ao mundo em agosto de 1879.

Minha filha Giovana enfrentou o exame da Ordem dos Advogados em agosto.

Minha Antologia Internacional de Poemas foi lançada em agosto.

Em agosto, completei inúmeras etapas de minha caminhada.

E, dolorosamente, também foi em agosto que meu filho Rodrigo encerrou sua breve travessia terrestre.

Percebi então que até as alegrias e as dores parecem, às vezes, escolher o mesmo endereço no calendário.

Também o número vinte e quatro resolveu fazer morada em minha vida.

Minha cadeira na Academia Ribeirãopretana de Letras é a de número vinte e quatro.

No Tiro de Guerra, esse também era meu número.

Minha primeira palestra, em Pradópolis-SP, como escritor, aconteceu num dia vinte e quatro.

Minha filha Giovana escolheu casar-se num dia vinte e quatro.

Não pude deixar de sorrir diante dessas repetições.

Os antigos talvez chamassem isso de destino. Os matemáticos diriam que é apenas probabilidade. Os psicólogos falariam em percepção seletiva.

Eu prefiro chamar de delicadezas da memória.

Os números não mudam os fatos, mas os fatos, quando vistos através dos números, parecem ganhar uma nova moldura.

O oito, dizem as antigas tradições, simboliza a construção, a disciplina, a justiça e a capacidade de transformar esforço em realização. Seu maior ensinamento, porém, talvez seja outro. Quando deitado, ele deixa de ser apenas um número: transforma-se no infinito, e sempre achei essa imagem extraordinária.

Em pé, o oito parece lembrar que devemos manter os pés firmes na realidade. Deitado, convida-nos a levantar os olhos para aquilo que não termina. Talvez toda existência humana seja exatamente isso: um permanente esforço para equilibrar terra e céu.

Já o vinte e quatro reduz-se ao seis, número tradicionalmente associado ao cuidado, à família, ao ensino e ao serviço.

Quando descobri isso, confesso que sorri novamente.

Passei mais de meio século dentro de salas de aula. Ajudei a fundar academias. Escrevi livros. Compus poemas. Conversei com milhares de jovens. Orientei famílias. Construí amizades.

Talvez o vinte e quatro estivesse apenas me lembrando daquilo que sempre procurei fazer: cuidar de pessoas por meio da educação.

Hoje compreendo que minha vida jamais poderá ser resumida por números: muito menos explicada por eles.

Os números não amam. Não sofrem. Não choram. Não escrevem poemas: quem faz tudo isso somos nós.

Mas eles possuem uma estranha capacidade de despertar perguntas.

E as perguntas, muitas vezes, valem mais do que as respostas.

Quando olho para trás, não vejo uma sucessão de datas. Vejo rostos. Vejo meus pais. Minha Lu. Meus filhos. Meus alunos. Os colegas das academias. Os amigos que a vida me deu. Vejo livros espalhados sobre a mesa. Salas de aula. Palcos. Auditórios. Fotografias antigas. Cartas. Abraços. E até as lágrimas que agosto um dia me obrigou a derramar.

Se existe algum verdadeiro significado no número oito, talvez ele não esteja na numerologia. Talvez esteja no fato de que o infinito começa exatamente quando aprendemos que nenhuma existência termina naquilo que conseguimos acumular: ela continua naquilo que conseguimos semear.

Nos alunos que continuam ensinando. Nos filhos que continuam amando. Nos leitores que continuam refletindo. Nos amigos que continuam lembrando. E nos versos que continuam encontrando leitores muito depois de o poeta guardar definitivamente a caneta.

Dentro de poucas semanas completarei setenta e sete anos: dois setes.

Quase um convite para fazer um balanço da viagem.

Curiosamente, continuarei acompanhado pelos velhos companheiros de sempre: o oito e o vinte e quatro.

Talvez eles não tenham moldado minha vida.

Mas, olhando agora pelo espelho da memória, percebo que caminharam ao meu lado durante todo o percurso.

E gosto de imaginar que, quando Deus resolveu escrever minha história, escolheu fazê-lo não apenas com palavras: escolheu também algumas discretas cifras, daquelas que só conseguimos enxergar quando aprendemos que o tempo não passa:ele escreve.

 

ANTONIO CARLOS TÓRTORO
Ex-presidente da ARL – Academia Ribeirãopretana de Letras
www.tortoro.com.br
[email protected]

 

ARL- ACADEMIA RIBEIRÃOPRETANA DE LETRAS, ARTIGOS, LITERATURA, QUEM SOU

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