ARTIGO: UM CERTO TORTORA E A MÁFIA

 

UM CERTO TORTORA E A MÁFIA 

Atualmente, no Brasil, o ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), tem sido alvo de intensas controvérsias e acusações de abusos de autoridade, especialmente por sua atuação como relator dos inquéritos das “fake news”, “milícias digitais” e dos atos de 8 de janeiro de 2023. Críticos e parte da imprensa apontam decisões polêmicas e injustas que, segundo eles, ferem garantias constitucionais e o devido processo legal. 

Meus antepassados, em Salerno, Itália, usavam o sobrenome Tortora. Meus avós, chegando ao Brasil, passaram a usar o sobrenome Tórtoro.

Segue abaixo a história de um Tortora, Enzo Tortora, famoso na Itália — que sofreu algo parecido com o que Moraes tem feito agora com muitos brasileiros, destruindo suas vidas.

Falar de Enzo Tortora é tocar em uma das histórias mais dramáticas — e também mais simbólicas — da relação entre justiça, mídia e erro humano no século XX europeu. Sua trajetória, que começa sob as luzes da televisão, passa pela escuridão de uma prisão injusta e termina com uma absolvição tardia, permanece como advertência viva contra os excessos do poder.

O homem público: carisma e credibilidade

Enzo Tortora nasceu em 1928, em Gênova, e construiu uma carreira sólida como jornalista e apresentador. Tornou-se uma figura extremamente popular na televisão italiana, sobretudo por comandar o programa Portobello, exibido pela RAI.

“Portobello” era mais do que entretenimento. Era um espaço de encontro entre pessoas comuns, com histórias, necessidades e sonhos. Tortora, com sua postura elegante e sua voz serena, transmitia confiança — quase uma autoridade moral diante do público.

Foi justamente essa credibilidade que tornaria sua queda ainda mais chocante.

Em 1983, Tortora foi preso sob acusações gravíssimas: participação com a Camorra, tráfico de drogas e associação criminosa.

A base dessas acusações era frágil: depoimentos de “pentiti” (criminosos arrependidos que colaboravam com a justiça). Entre eles, destacava-se Giovanni Pandico, cujo testemunho viria depois a ser considerado completamente fantasioso.

Não havia provas materiais consistentes. Não havia evidências concretas. Apenas palavras.

Ainda assim, Tortora foi preso.

O impacto foi devastador. Um homem que simbolizava a confiança pública passou, da noite para o dia, a ser visto como criminoso. A imprensa, em muitos casos, antecipou o julgamento — condenando antes da sentença.

Durante meses, Tortora permaneceu encarcerado. A experiência foi profundamente humilhante e dolorosa.

Ele repetia, com insistência quase desesperada: “Eu sou inocente.”

Essa frase se tornou símbolo de resistência, mas, naquele momento, soava como um grito solitário contra uma máquina que já havia decidido seu destino.

Posteriormente, ele foi colocado em liberdade provisória, mas o dano já estava feito: sua imagem, sua carreira e sua vida haviam sido brutalmente atingidas.

Em 1985, veio o golpe mais duro: Tortora foi condenado a 10 anos de prisão.

A decisão causou perplexidade em parte da sociedade italiana. Como um homem sem histórico criminal, sem provas materiais contra si, poderia ser condenado com base apenas em testemunhos duvidosos?

Ainda assim, a condenação foi oficial.

Tortora, no entanto, não desistiu.

Em 1986, após recurso, a justiça italiana finalmente reconheceu o erro.

Enzo Tortora foi completamente absolvido de todas as acusações.

Ficou provado que os testemunhos que o incriminavam eram falsos, contraditórios ou fruto de delírios. O sistema havia falhado — e falhado de forma trágica.

Ele foi reintegrado à RAI e voltou a apresentar “Portobello”. Sua volta à televisão foi marcada por emoção e dignidade.

Mas algo nele já havia sido irremediavelmente atingido.

O sofrimento vivido durante o processo deixou marcas profundas. Em 1988, apenas dois anos após sua absolvição, Tortora faleceu vítima de câncer.

Muitos consideram que o desgaste físico e emocional provocado pela injustiça contribuiu para sua morte precoce.

Sua história não terminou com a absolvição — terminou com um homem que, mesmo inocentado, não pôde recuperar plenamente o que lhe foi tirado.

O caso de Enzo Tortora tornou-se um marco na Itália e no mundo. Ele passou a representar: os perigos da confiança cega em testemunhos sem prova; o risco de condenações baseadas em pressão midiática; a fragilidade do sistema judicial diante de narrativas convincentes, mas falsas.

Seu caso é frequentemente citado em debates sobre garantias legais, presunção de inocência e responsabilidade da imprensa.

Mais do que uma vítima, Tortora tornou-se um símbolo — um alerta permanente.

A história de Enzo Tortora nos coloca diante de uma questão desconfortável: quantas vezes a verdade precisa lutar contra estruturas que deveriam protegê-la?

Ele não foi apenas acusado injustamente. Foi, por um tempo, transformado naquilo que nunca foi. E, mesmo absolvido, pagou um preço que nenhuma sentença poderia reparar.

Talvez sua maior herança seja essa consciência: a justiça não pode se permitir errar com tanta facilidade — porque, quando erra, não destrói apenas reputações. Destrói vidas.

 

ANTONIO CARLOS TÓRTORO
Ex-presidente da ARL – Academia Ribeirãopretana de Letras
www.tortoro.com.br
[email protected]

 

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