LI E GOSTEI – O HOMEM MAIS RICO DA BABILÔNIA

 

O HOMEM MAIS RICO DA BABILONIA

‘A areia passa. A escrita permanece”

Ao encerrar a leitura de O Homem Mais Rico da Babilônia, de George S. Clason, uma frase ressoa como um sino atravessando os séculos: “Os éons do tempo cobriram de areia os altivos muros de seus templos, mas a sabedoria da Babilônia permanece…”.

E eu acrescentaria: graças às tabuinhas de argila.

Eis uma das maiores lições escondidas por trás da própria obra: civilizações podem ruir, palácios podem virar pó, impérios podem desaparecer do mapa, porém aquilo que foi escrito desafia o tempo.

A antiga Babilônia já não vive em seus jardins, em suas muralhas ou em seus mercados. O esplendor material foi vencido pelos ventos, pelas guerras e pelos séculos. No entanto, seus ensinamentos ainda conversam conosco. Falam de prudência, de trabalho, de economia, de disciplina, de prosperidade construída com paciência. E por que ainda falam? Porque alguém escreveu.

As mãos que moldaram tabuinhas de argila talvez jamais imaginassem que, milhares de anos depois, pessoas em outros continentes refletiriam sobre suas palavras. Aqueles sinais gravados com esforço transformaram-se em pontes entre mortos e vivos, entre passado e futuro, entre experiência e aprendizado.

A escrita é uma das maiores invenções humanas não apenas por registrar fatos, mas por conservar valores. Ela guarda conselhos, erros, vitórias, sonhos e advertências. Sem a escrita, cada geração precisaria começar do zero, condenada a repetir tropeços já conhecidos. Com a escrita, herdamos a memória de quem veio antes.

Quantos povos desapareceram sem deixar voz? Quantas histórias se perderam porque não foram registradas? Quantos exemplos nobres e quantos alertas necessários se dissolveram no esquecimento? Onde não há escrita, o tempo age como maré que apaga pegadas na areia.

Por isso, escrever é mais do que comunicar. Escrever é resistir ao desaparecimento. É dizer ao futuro: “Nós estivemos aqui. Pensamos, amamos, erramos, aprendemos.” Cada carta, livro, diário, poema, documento ou simples anotação pode tornar-se testemunho de uma época.

Em nossos dias digitais, quando tudo parece rápido e descartável, essa verdade continua viva. Mudaram-se as ferramentas: da argila ao papel, do papel à tela. Mas a essência permanece. Registramos para lembrar. Escrevemos para transmitir. Guardamos palavras para que a vida não se perca no silêncio.

O Homem Mais Rico da Babilônia ensina sobre riqueza material, sem dúvida. Porém, silenciosamente, ensina também sobre outra riqueza maior: a herança do conhecimento preservado. Os templos tombaram. Os muros sumiram. A poeira cobriu a pedra. Mas as ideias sobreviveram.

E sobreviveram porque alguém escreveu.

 

ANTONIO CARLOS TÓRTORO
Ex-presidente da ARL – Academia Ribeirãopretana de Letras
www.tortoro.com.br
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