BECO SEM SAÍDA
“Não concordo com o que dizes, mas defendo até a morte o direito de o dizeres”.
Frase associada a Voltaire
Colocarei, lado a lado, duas formas de violência — uma no ambiente escolar e outra no espaço público/político — que, embora diferentes em intensidade e impacto, têm raízes explicáveis em fatores semelhantes da vida psíquica e social.
Primeiro caso: um aluno que chuta, e quebra, a parede da sala de aula.
Esse comportamento costuma ser explicado como: a criança ou adolescente, muitas vezes, não encontra palavras ou recursos internos para expressar frustração, raiva ou impotência, então canaliza esses sentimentos para um ato físico contra um objeto (no caso, a parede) ou o gesto pode ser um pedido indireto de atenção, uma forma de dizer “estou aqui” em meio a um ambiente que ele sente como hostil ou indiferente.
Segundo caso: um jornalista experiente que declara desejo de agredir um ministro do STF, ou mesmo um Ministro que declara querer dar um soco no colega. Aqui o contexto é distinto: o jornalista não “chuta” uma parede física, mas verbaliza um desejo agressivo contra uma figura que representa uma instituição. Isso revela uma frustração que ele não vê outra forma de canalizar senão pela violência imaginada ou declarada.
O elo explicativo comum, para mim, é que, em ambos os casos os fatos só ocorreram por falta de outra opção aparente.
Mesmo o mais dócil dos animais, se acuado, se sentir-se num beco sem saída, ele ataca seu ameaçador, porque não vê outra forma de se livrar do problema.
O que aproxima os dois casos, penso eu, é que, em ambos, a agressão cumpre função de aliviar uma pressão interna (angústia, impotência, frustração).
Freud descrevia que, quando o Eu se sente ameaçado e não encontra mediações adequadas, o impulso pode emergir de forma crua, seja no ato (chutar a parede) ou no enunciado (ameaçar agredir).
Um político conhecido disse, certo dia que, algumas pessoas, despertavam nele os instintos mais primitivos: mecanismo primitivo do psiquismo
Em resumo, tanto o aluno quanto o jornalista recorrem à violência porque, diante da frustração e da impotência, não conseguem ou não querem transformar o afeto em palavra ou ação construtiva. A diferença é que, no primeiro caso, o alvo é material e imediato (parede), e no segundo, simbólico e institucional (um ministro do STF).
Então a solução é sempre permitir a cada ser humano, todas as possibilidades dele se manifestar: a chamada liberdade de expressão, tão discutida nos dias atuais.
Ouvir o aluno em suas reivindicações é equivalente a permitir ao jornalista escrever um artigo a favor, ou contra, qualquer que seja o fato concreto.
Para o jornalista deveria valer a nossa Constituição e para o aluno, o Regimento Escolar, tendo ambos um amplo direito de defender suas opiniões e ideias.
ANTONIO CARLOS TÓRTORO
Ex-presidente da ARL – Academia Ribeirãopretana de Letras
www.tortoro.com.br
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