A INJUSTIÇA DE UMA PUNIÇÃO EM NÁRNIA
“Quando a regra acerta, mas a justiça falha”
Há lugares que deveriam ser apenas refúgio. Espaços onde a convivência se dá de forma leve, quase natural, como se a harmonia fosse parte da paisagem.
Assim é o clube Nárnia: belo, acolhedor, cercado de natureza — e, ainda assim, palco eventual de situações que nos fazem refletir sobre o que é, de fato, justiça.
Recentemente, um episódio aparentemente simples ganhou proporções maiores.
Um associado, amigo meu, pessoa conhecida, respeitada e muito bem quista pela comunidade do clube, chegou logo após a abertura do mesmo. Como tantos fazem — e talvez sem refletir profundamente sobre as implicações — colocou sua mochila com pertences sobre duas mesas — porque esperava por um convidado seu — e dirigiu-se à piscina.
À primeira vista, um gesto comum.
Mas há um detalhe essencial: em Nárnia é proibido alimentar-se na área das piscinas.
Ou seja, quem está na piscina e pretende, mais tarde, almoçar ou simplesmente sentar-se para uma refeição, depende de encontrar uma mesa disponível fora desse espaço.
E é aqui que o problema começa.
Se o associado não “reserva” minimamente um lugar, corre o risco de, ao sair da piscina, não ter onde sentar-se, próximo a ela, para se alimentar — não por descuido, mas por ausência de estrutura suficiente para todos.
Mais tarde, outro associado chega, já com Nárnia tendo recebido centenas de associados, vê a mesa ocupada apenas por uma mochila, retira a mesma, retira também uma das mesas, e passa a utilizá-la.
O conflito instala-se quando meu amigo chega da piscina e vê seu lugar, antes reservado, ocupado, e não encontra apenas seu espaço ocupada — encontra a impossibilidade concreta de cumprir uma regra do próprio clube: alimentar-se fora da área da piscina, mas, agora, sem ter onde fazê-lo..
A questão chega à diretoria, tendo em vista o tumulto causado com agressões verbais e ameaças generalizadas, e com a necessidade de intervenção de seguranças.
E uma decisão é tomada: suspensão do meu amigo, porque ele desrespeitou à norma que proíbe reservar mesas com objetos, e foi envolvido numa acalorada discussão.
Sim, a regra foi descumprida.
Mas a pergunta permanece — e talvez agora com ainda mais força: foi justo?
Estamos diante de um associado, meu amigo, de reconhecida boa convivência, alguém que nunca fez do espaço comum um território de privilégio pessoal.
Seu gesto não foi de exclusão, mas de precaução. Não buscava vantagem indevida, mas garantia mínima de dignidade: ter onde sentar-se para uma refeição, após sair da piscina, conforme exigem as próprias normas do clube.
Há aqui uma contradição evidente.
O clube proíbe que se coma na piscina — o que é compreensível.
Mas não assegura, de forma suficiente, espaços para que todos possam se alimentar fora e próximo dela — já que alguns pertences sempre ficam na piscina, tendo em vista o desejo justo de voltar, se assim o desejar, após o almoço/lanche.
Mas, ao mesmo tempo, pune quem tenta, ainda que de forma imperfeita, resolver essa lacuna, digamos, administrativa.
Cria-se, assim, um impasse.
Se o associado não reserva, pode não ter onde comer.
Se reserva, é punido.
Diante disso, não estamos apenas diante de uma infração.
Estamos diante de um problema de organização.
A decisão da diretoria, embora amparada na norma, parece desconsiderar esse contexto. E, ao fazê-lo, torna-se desproporcional — especialmente por recair sobre alguém, meu amigo, cuja trajetória no clube é marcada pelo respeito e pela boa convivência.
Punir, nesse caso, não resolve o problema. Apenas desloca a responsabilidade para o indivíduo, o associado.
A solução não está em endurecer regras, mas em harmonizá-las com a realidade. Ampliar espaços, reorganizar áreas, criar mecanismos mais justos de uso — essas seriam respostas mais eficazes e, sobretudo, mais coerentes com o espírito de um clube que se diz “para todos”.
Porque justiça não é apenas aplicar normas, é compreender situações, é considerar intenções, é equilibrar deveres e condições reais.
Em Nárnia — como em qualquer comunidade deveria ocorrer — a verdadeira justiça começa quando deixamos de olhar apenas para o erro e passamos a enxergar o contexto que o produziu.
E a pergunta final, que não pode ser evitada, permanece: como conciliar regras que proíbem e, ao mesmo tempo, não oferecem condições para que sejam cumpridas?
Se uma resposta adequada não for dada a esta pergunta, fico preocupado com seguranças e funcionários que correm o risco de não terem a mínima condição de obedecerem a normas estabelecidas pela diretoria, já que, como visto, essas normas não conseguem resolver conflitos que poderão voltar a acontecer…inclusive comigo.
Escrevo este artigo porque sempre me lembro do famoso poema “No caminho, com Maiakóvski”: “Na primeira noite eles se aproximam e roubam uma flor do nosso jardim. E não dizemos nada….”. E assim vai.
ANTONIO CARLOS TÓRTORO
Ex-presidente da ARL – Academia Ribeirãopretana de Letras
www.tortoro.com.br
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