ARTIGO: SYNOPSE EVANGELICA (1909)

 

SYNOPSE EVANGELICA (1909)

 

“Um tesouro espiritual, histórico e afetivo da família Tórtoro”

 

Entre os livros antigos que atravessam gerações, há aqueles que deixam de ser apenas obras impressas para se transformarem em testemunhos vivos da fé, da cultura e da memória familiar. É o caso da obra Synopse Evangelica, publicada em 1909, em Turnhout, Bélgica, pelos tradicionais editores pontifícios dos Estabelecimentos Brepols, A.G.

O exemplar pertenceu a meu saudoso pai, Claudio Tórtoro, que o adquiriu quando ainda era Congregado Mariano na Igreja São José, em Ribeirão Preto, sob orientação espiritual do inesquecível Frei Benvindo. Assim, muito antes de chegar às minhas mãos, este livro já carregava uma profunda dimensão religiosa, educativa e humana.

A capa da obra, marcada pelo tempo, conserva a dignidade dos grandes livros do início do século XX. Nela repousa não apenas um objeto editorial raro, mas um símbolo de uma época em que a formação espiritual caminhava lado a lado com o estudo rigoroso das Escrituras.

A Synopse Evangelica apresenta um “Texto harmonizado dos Quatro Evangelhos”, organizado segundo “os últimos dados da Sciencia”, expressão típica do período, revelando a tentativa — ousada para a época — de aproximar fé, investigação histórica e método científico. Trata-se de uma obra que buscava conciliar devoção e erudição, oferecendo ao leitor uma leitura comparada e sincronizada dos Evangelhos de Mateus, Marcos, Lucas e João.

O volume possui 83 gravuras, elemento valioso tanto artisticamente quanto pedagogicamente. Essas imagens não tinham apenas função decorativa: serviam como instrumento de meditação, catequese e compreensão visual dos episódios evangélicos. Em tempos anteriores à televisão e à cultura digital, a gravura religiosa desempenhava importante papel formativo, ajudando o fiel a contemplar os mistérios da vida de Cristo.

Outro aspecto notável é o chamado “Indice Synchronico”, recurso sofisticado para a época, que permitia ao leitor acompanhar paralelamente os acontecimentos narrados pelos quatro evangelistas. Tal organização demonstra o cuidado intelectual da obra e seu compromisso com uma leitura sistemática e harmoniosa dos textos sagrados.

Os Estabelecimentos Brepols, responsáveis pela edição, possuem longa tradição editorial na Europa católica. A cidade belga de Turnhout tornou-se referência na impressão de livros litúrgicos, bíblicos e acadêmicos, especialmente voltados à formação religiosa e humanística. Possuir, no interior do Brasil do início do século XX, um livro vindo diretamente de um centro editorial europeu representava prestígio cultural, esforço familiar e profundo apreço pela educação religiosa.

Quando observo esta obra hoje, não vejo apenas um livro antigo. Vejo meu pai jovem, participante da Congregação Mariana, entrando na Igreja São José, ouvindo os ensinamentos de Frei Benvindo e descobrindo, nas páginas da Synopse Evangelica, uma maneira mais profunda de compreender o Evangelho.

Vejo também um elo silencioso entre gerações.

Livros assim sobrevivem porque carregam mais do que tinta e papel: carregam presença. Tornam-se relíquias afetivas, testemunhas da espiritualidade de uma família e sinais concretos de uma época em que estudar o Evangelho era também um exercício de disciplina, contemplação e busca pela verdade.

Hoje, ao apresentar esta capa centenária e duas gravuras colorizadas por IA, presto homenagem não apenas a uma rara obra religiosa, mas também à memória de meu pai, Claudio Tórtoro, à tradição mariana da Igreja São José e à força transformadora dos livros que permanecem vivos através do tempo.

 

ANTONIO CARLOS TÓRTORO
Ex-presidente da ARL – Academia Ribeirãopretana de Letras
www.tortoro.com.br
[email protected]

 

 

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