A RAPOSA, OS PAVÕES E OS ESPELHO
“Quem precisa diminuir o outro raramente está em paz consigo mesmo”
Frase inspirada na obra de Érich Fromm sobre caráter
Recentemente, lendo a obra “A arte de amar”, de Érich Fromm, — na qual ele defende a ideia de que, quem desenvolveu amor a si mesmo e maturidade emocional não precisa afirmar seu valor diminuindo os outros — lembrei-me de uma fábula antiga, que não sei se é de Esopo…
Na maior floresta da região vivia uma raposa que se tornara “líder” de uma grande comunidade de animais.
Quando recebia visitantes de outras matas, era a própria elegância. Sorria, elogiava todos, falava sobre união, respeito e trabalho em equipe. Os forasteiros partiam encantados.
— Que líder extraordinária! — comentavam.
Mas os animais que trabalhavam ao seu lado conheciam outra raposa.
Ela jamais rugia como um leão nem atacava como um lobo. Suas armas eram mais discretas. Quando um castor construía uma barragem admirável, dizia:
— Ficou boa… embora eu esperasse algo melhor.
Quando um sabiá encantava a floresta com seu canto, comentava:
— Bonito… mas já ouvi cantos mais afinados.
Quando um esquilo tinha uma ideia inteligente, a raposa logo a apresentava como se fosse sua.
Pouco a pouco, os animais deixaram de mostrar seus talentos.
A raposa, porém, adorava andar cercada por papagaios que repetiam tudo o que ela dizia.
— Que inteligência! — Que sabedoria! — Que líder maravilhosa!
Esses elogios alimentavam seu orgulho, mas escondiam um segredo: a raposa temia que algum animal fosse mais admirado do que ela.
Certa tarde, uma velha coruja observou tudo em silêncio. Ao cair da noite, reuniu os moradores da floresta e contou-lhes:
— Há árvores que crescem oferecendo sombra. Outras tentam parecer maiores derrubando as árvores vizinhas. Mas nenhuma floresta prospera quando as mais fortes impedem as outras de alcançar a luz.
A raposa ouviu aquelas palavras e fingiu que não eram com ela.
O tempo passou.
Os castores foram construir barragens em outra mata. Os sabiás escolheram novos bosques para cantar. Os esquilos levaram sua criatividade para lugares onde suas ideias eram valorizadas.
Restaram apenas os papagaios.
Todos repetiam as palavras da raposa, mas ninguém sabia resolver os problemas da floresta.
Foi então que a raposa percebeu que os aplausos que tanto apreciava não construíam pontes, não plantavam árvores nem faziam a floresta crescer.
Mas já era tarde.
Ela havia confundido admiração com bajulação e autoridade com grandeza.
E a floresta, antes cheia de vida, tornou-se um lugar de ecos, onde apenas sua própria voz ainda respondia.
Moral da fábula:
Quem diminui os talentos alheios para parecer maior acaba cercado apenas por quem sabe aplaudir, nunca por quem sabe construir.
ANTONIO CARLOS TÓRTORO
Ex-presidente da ARL – Academia Ribeirãopretana de Letras
www.tortoro.com.br
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