MINICONTO: OS TREZE RELÓGIOS

 

OS TREZE RELÓGIOS

 

Em algum ponto perdido entre os armários falantes e os corredores gelados de Nárnia, existia um político chamado Lorde Jaquesmaster, homem de hábitos estranhos e discursos ainda mais estranhos. Não governava exatamente nada, mas inaugurava pontes invisíveis, assinava decretos escritos em guardanapos e fazia pronunciamentos para esquilos diplomatas.

Sua maior obsessão eram os relógios.

Possuía treze relógios de luxo, cravejados de ouro, safiras, rubis e pequenas bússolas que nunca apontavam para lugar algum. Todas as manhãs, diante de um espelho veneziano trazido ilegalmente de Cair Paravel, colocava três relógios em cada braço e três em cada perna. O décimo terceiro ficava pendurado no pescoço, como medalha de uma guerra travada contra os minutos.

Tinha pavor de perder a hora.

Não a hora política. Não a hora histórica. Apenas… a hora.

Para proteger seu patrimônio cronológico, mantinha treze seguranças armados — um para cada relógio. Os guardas marchavam atrás dele em formação circular, parecendo um sistema solar paranoico. Diziam que um deles certa vez tentou olhar as horas sem autorização e foi promovido a jardineiro do Ministério das Névoas.

Jaquesmaster também possuía um aspone oficial, cargo criado exclusivamente para orientá-lo sobre qual relógio consultar. O homem carregava uma prancheta e, pontualmente de hora em hora, dizia:

— Excelência, agora é o relógio da perna esquerda superior.

Ou:

— Atenção, senhor, o horário institucional encontra-se no pulso direito secundário.

O político obedecia religiosamente.

Durante o banho, não retirava nenhum relógio. Todos eram à prova d’água, resistentes a vapor, espuma e lágrimas preventivas. Contudo, não eram à prova de um certo Ministro Honesto do STF e da PF, figura quase mitológica em Nárnia, conhecida apenas como Doutor Transparêncio de Albuquerque III.

Quando ouviu rumores de que o Ministro investigava sua estranha fobia horária, Jaquesmaster entrou em colapso emocional.

Passou a tomar banhos de três horas, cantando desesperadamente:

— Ai ai ai ai… está chegando a hora…

E chorava.

Chorava tanto que os relógios começaram a atrasar.

Primeiro alguns segundos. Depois minutos. Depois quartas-feiras inteiras.

Os ponteiros enlouqueceram.

Um marcava 83 de fevereiro. Outro apontava 25 horas. Um terceiro transmitia jogos da Copa de 1970 em código Morse.

Os seguranças começaram a prender os próprios relógios. O aspone desapareceu dentro de um cuco suíço. E o Ministro Honesto surgiu montado num rinoceronte administrativo segurando um mandado escrito em papel-toalha.

 

ANTONIO CARLOS TÓRTORO
Ex-presidente da ARL – Academia Ribeirãopretana de Letras
www.tortoro.com.br
[email protected]

ARL- ACADEMIA RIBEIRÃOPRETANA DE LETRAS, ARTIGOS, LITERATURA

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