ARTIGO: TAFOFOBIA E O ENTERRO PREMATURO.

 

TAFOFOBIA E O ENTERRO PREMATURO.

 

O medo de ser sepultado vivo existe há séculos e tem até um nome: tafofobia. Muitas pessoas, já sentiram, e sentem, esse receio em algum momento.

Hoje, dizem, a medicina possui critérios extremamente rigorosos para constatar a morte: eu gostaria de acreditar nisso.

Em hospitais, especialmente, são verificados sinais cardíacos, neurológicos e respiratórios com equipamentos muito precisos. Casos reais de sepultamento prematuro tornaram-se extraordinariamente raros na era moderna.

Curiosamente, esse medo influenciou até a literatura. Edgar Allan Poe escreveu contos famosos sobre o tema, como “The Premature Burial”, justamente porque a sociedade da época tinha grande temor disso.

Mas, infelizmente, de vez em quando, acordo de madrugada, no silêncio absoluto do quarto, e vêm-me pensamentos estranhos e perturbadores. Entre eles, um se destaca com insistência quase cruel: a possibilidade de ser sepultado vivo.

Não sei exatamente de onde nasce esse medo. Talvez venha das antigas histórias ouvidas na infância, talvez de algum conto esquecido, talvez apenas da imaginação humana, essa fábrica silenciosa de terrores noturnos. O fato é que, nas horas escuras da madrugada, ele surge com força suficiente para roubar o sono e apertar o peito.

Não tenho medo da morte.

A morte, para mim, não representa o fim absoluto. Nunca consegui acreditar que toda a consciência humana, toda memória, todo amor vivido e toda essência espiritual simplesmente desapareçam no nada. Há em mim a convicção íntima de que existe alguma continuidade além desta existência física.

O que me apavora não é a morte.

O que me apavora é imaginar-me despertando dentro de um caixão.

Pensar na volta súbita da consciência em meio à escuridão total. Sentir o corpo imóvel, o ar faltando, o desespero crescendo a cada segundo. Imaginar as mãos tocando madeira fechada por todos os lados. O silêncio absoluto da terra sobre o túmulo. A impossibilidade de pedir socorro. A consciência lúcida diante da falta de oxigênio.

Esse pensamento é terrível.

Talvez porque represente a mais absoluta solidão humana.

Há algo profundamente angustiante na ideia de estar vivo sem que ninguém saiba. Existir e não poder comunicar a própria existência. Respirar e perceber que o mundo inteiro acredita que você já partiu.

Nas madrugadas insones, pergunto a mim mesmo o que poderia fazer para sentir segurança. Como garantir que serei realmente sepultado morto? Como convencer o coração de que a medicina moderna já não permite os erros grotescos de séculos passados? Como calar essa imaginação que transforma um pensamento remoto numa cena quase real?

E então percebo que certos medos não nascem da razão.

Nascem da condição humana.

O ser humano teme o esquecimento, o abandono, o silêncio, o isolamento absoluto. O caixão fechado talvez seja apenas o símbolo extremo dessas angústias ancestrais.

Mesmo assim, quando a madrugada avança e o relógio parece caminhar mais devagar, continuo buscando alguma paz interior. Talvez ela venha da fé. Talvez da ciência. Talvez apenas da aceitação de que não podemos controlar todos os mistérios da existência.

Enquanto isso, sigo despertando algumas noites com esse pensamento sombrio, olhando para o teto escuro e tentando convencer meu próprio espírito de que, quando chegar minha hora, eu já terei partido antes que fechem a tampa do silêncio definitivo

 

ANTONO CARLOS TÓRTORO
Ex-presidente da ARL – Academia Ribeirãopretana de Letras
www.tortoro.com.br
[email protected]

ARL- ACADEMIA RIBEIRÃOPRETANA DE LETRAS, ARTIGOS, LITERATURA, QUEM SOU

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