ARTIGO: E POR FALAR EM CANAIS…

E POR FALAR EM CANAIS…

 

Hoje estive num espaço carregado de história e memória humana: rua Visconde de Inhaúma, 490, Edifício Padre Euclides: um canal invisível que nos leva ao início do século XX.

Um lugar que, muitas décadas atrás, abrigou a antiga Legião Brasileira Civismo e Cultura, espaço profundamente marcado pela presença luminosa de , meu Patrono na Cadeira nº 8 da ALARP: padre Euclides Carneiro.

Ao entrar naquele ambiente, senti algo difícil de explicar. As paredes pareciam guardar ecos de vozes antigas, de passos apressados, de preces silenciosas e de gestos de solidariedade que o tempo não conseguiu apagar. Ali, onde tantas pessoas humildes buscaram, um dia, amparo material e espiritual, permaneci algumas horas no quinto andar, sala 506, para tratar quatro canais de dois pré-molares,14 e 15,  sob os cuidados do Dr. Gustavo Salgado, profissional de rara competência, serenidade e fino trato humano.

Enquanto o tratamento acontecia, vieram-me pensamentos inesperados.

Por alguns instantes, tive quase a sensação de que Padre Euclides ainda vigiava aquele espaço com seu olhar bondoso e atento, como se sua memória permanecesse impregnada no ambiente, acompanhando silenciosamente cada pessoa que ali chega.

Imaginei quantos idosos, quantos trabalhadores simples, quantas famílias pobres passaram por aquele mesmo local no início dos anos 1900 em busca de atendimento odontológico, quando sorrir sem dor talvez fosse um privilégio raro. Quantos tiveram alívio graças às iniciativas sociais e humanitárias inspiradas por aquele sacerdote extraordinário, cuja vida foi dedicada ao serviço do próximo.

Há lugares que deixam de ser apenas construções. Transformam-se em territórios da memória coletiva, em canais que nos ligam ao passado

E certos homens, pela grandeza moral de suas ações, continuam presentes mesmo após a morte. Não por meio de monumentos frios, mas sim da sensação inexplicável de acolhimento que ainda conseguem despertar.

Saí dali pensando que talvez existam ambientes onde o passado nunca desaparece completamente: apenas permanece em silêncio… observando, protegendo e recordando tudo aquilo que foi feito em favor da dignidade humana.

 

ANTONIO CARLOS TÓRTORO
Ex-presidente da ARL – Academia Ribeirãopretana de Letras
www.tortoro.com.br
[email protected]

 

 

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