“OITODEJANEIRO”: INCOMODA
“Atualmente, ainda 179 pessoas continuam presas por envolvimento nos atos de 8 de janeiro de 2023, segundo balanço do Supremo Tribunal Federal (STF)”.
O 8 de janeiro permanece como uma das feridas mais profundas da história recente do Brasil.
Isso incomoda.
Uma chaga aberta na consciência nacional. Um câncer moral e institucional que resiste às quimioterapias do discurso político e às radioterapias das narrativas oficiais. Uma mácula indelével gravada no corpo da liberdade brasileira.
Há acontecimentos que ultrapassam os limites da política e penetram diretamente na alma de um povo. O 8 de janeiro tornou-se um desses episódios. Não apenas pelos fatos em si, mas pelas consequências humanas, emocionais e espirituais que ainda ecoam na vida de milhares de cidadãos.
Muitos brasileiros conscientes de seus deveres para com o próximo já não conseguem viver plenamente enquanto sentem pairar sobre o país essa sombra pesada. Dormir tornou-se difícil. Acordar já não traz a mesma serenidade. Comer, sorrir, festejar ou experimentar verdadeira felicidade parece quase impossível para aqueles que carregam dentro de si a sensação de que existem dores humanas sendo ignoradas em nome de interesses maiores, disputas ideológicas ou conveniências institucionais.
Porque quando seres humanos sofrem, toda a sociedade adoece junto.
Há homens, mulheres, idosos, trabalhadores, pais e mães vivendo consequências severas de um período que dividiu profundamente a nação. Independentemente das interpretações jurídicas, políticas ou partidárias, permanece uma pergunta moral que inquieta muitos corações: até que ponto uma sociedade consegue manter sua paz interior quando acredita existirem inocentes padecendo sob o peso da máquina do poder?
O sofrimento humano nunca deveria ser banalizado.
A história mostra que as grandes tragédias das civilizações começaram justamente quando o povo se acostumou a assistir em silêncio à dor do outro. O silêncio coletivo pode transformar-se em cumplicidade involuntária. E talvez seja exatamente isso que atormente tantos brasileiros: a sensação angustiante de nada estarem fazendo enquanto compatriotas enfrentam angústias, separações familiares, humilhações, medo e desesperança.
Por isso, muitos sentem que deveriam estar, ao menos espiritualmente, presos junto de seus irmãos. Não por incentivo ao erro, nem por negação da Justiça, mas por solidariedade humana. Por consciência moral. Por acreditarem que ninguém deveria perder sua dignidade ao sonhar com um país ideal, justo e fraterno.
O Brasil nasceu sob o signo da esperança. E esperança não combina com ódio permanente, perseguição eterna ou desumanização do adversário.
Talvez a verdadeira reconstrução nacional só aconteça quando o país voltar a enxergar pessoas antes de enxergar rótulos. Quando voltar a compreender que nenhuma ideologia vale mais que a compaixão. E que nenhuma democracia se fortalece quando parte de seu povo passa a viver aprisionada pelo medo, pela mágoa ou pela sensação de abandono.
Enquanto houver brasileiros sofrendo e famílias chorando por causa das cicatrizes deixadas pelo 8 de janeiro, a ferida continuará aberta na consciência nacional.
E feridas ignoradas jamais cicatrizam.
ANTONIO CARLOS TÓRTORO
Ex-presidente da ARL – Academia Ribeirãopretana de Letras
www.tortoro.com.br
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