ARTIGO: O ÉFODE E A INTELIGENCIA ARTIFICIAL

 

O ÉFODE E A INTELIGENCIA ARTIFICIAL

“A qualidade da resposta depende diretamente da qualidade da pergunta”

IA para Iniciantes -Hilton S. Figueiredo

 

Naquela noite de inverno, início de julho, termômetros marcando menos de dez graus, minha esposa e eu estávamos em nosso quarto por volta das vinte e duas horas, aproveitando minhas férias escolares.

Cabeças recostadas na cabeceira da cama, os corpos cobertos por grossos cobertores, e, ao lado da cama, garrafa térmica de chá mate bem quentinho.

Minha esposa disputava, com seu celular, uma partida de dominó.

Enquanto isso, eu fazia revisão do livro “IA para iniciantes” do meu amigo Ton.

Na TV, imagens da novela Reis, da Record.

Foi quando notei que Davi buscava orientação do Senhor, junto a Abiatar, o sacerdote: “E disse Davi a Abiatar, o sacerdote, filho de Aimeleque: Traze-me aqui o éfode. E Abiatar trouxe o éfode a Davi.
Então consultou Davi ao Senhor, dizendo: Perseguirei eu a esta tropa? Alcançá-la-ei? E o Senhor lhe disse: Persegue-a, porque de certo a alcançarás e tudo libertarás –  1 Samuel 30:7-8”.

Mas antes de qualquer manifestação de Davi, Abiatar disse a ele: “Faça sua pergunta da forma mais completa e detalhada possível”.

Por coincidência, ou não, eu acabara de ler no rascunho do livro que eu revisava, justamente a informação fundamental para quem se inicia no desvendar a IA: “A qualidade da resposta depende diretamente da qualidade da pergunta”.

Nesse momento tive um insight, lembrei-me da imagem de uma serpente engolindo o próprio rabo, formando um círculo, Ouroboros, e me imaginei dobrando o espaço-tempo de Einstein, e unindo duas pontas dele, que ligavam a época do Antigo Testamento à nossa, século XXI: uniam Urim e Tumim, Inteligência Artificial, e a importância  da clareza na formulação de perguntas.

Então passei a refletir: Ao longo da história, seres humanos sempre buscaram formas de obter respostas que orientassem decisões importantes. No Antigo Testamento, essa busca aparece no uso do Urim e Tumim, partes do Éfode, objetos sagrados que ajudavam a esclarecer dúvidas em situações decisivas. Hoje, vivemos outro momento em que tecnologias, como a Inteligência Artificial (IA), se tornaram ferramentas frequentes de consulta. Apesar de separados por milênios e contextos muito diferentes, esses dois exemplos têm algo em comum: a necessidade de perguntas bem formuladas.

O Urim e Tumim faziam parte do chamado peitoral do juízo, uma peça das vestes do sumo sacerdote de Israel, descrita em Êxodo 28:30. Esses instrumentos eram usados para consultar Deus quando havia questões de grande relevância coletiva — por exemplo, sobre entrar ou não em guerra, identificar quem havia cometido uma transgressão, ou tomar decisões sobre liderança.

Por serem respostas objetivas — geralmente “sim” ou “não” — era indispensável que a pergunta fosse muito clara e delimitada. Uma consulta vaga não gerava resposta útil.

Na atualidade, recorremos a sistemas de Inteligência Artificial para responder perguntas que vão de simples curiosidades a decisões estratégicas. Plataformas de atendimento ao consumidor, assistentes de redação, orientadores jurídicos e aplicativos médicos usam IA para interpretar dados e oferecer recomendações.

Porém, assim como no uso do Urim e Tumim, a qualidade da resposta depende diretamente da qualidade da pergunta. Uma consulta ampla — como “o que devo fazer?” — gera informações superficiais. Em contrapartida, perguntas bem estruturadas e contextualizadas produzem respostas muito mais relevantes.

No passado, a clareza na formulação da pergunta tinha valor religioso e comunitário. Antes de consultar Deus, o líder e o povo refletiam juntos para definir exatamente o que desejavam saber.

Hoje, embora a consulta seja a sistemas informáticos, a lógica permanece: sistemas de IA não “adivinham” intenções de forma mágica. Eles dependem de dados e parâmetros claros.

Essa semelhança revela que, seja no templo antigo ou diante de uma tela de computador, a pergunta clara sempre foi a chave para uma resposta útil.

Enfim, ao compararmos essas duas práticas — o uso do Urim e Tumim e o uso da Inteligência Artificial — podemos perceber que, mesmo em épocas tão diferentes, o princípio fundamental não mudou: perguntas vagas resultam em respostas vagas.

No passado, a clareza na consulta era entendida como demonstração de respeito ao processo sagrado. Hoje, é considerada uma competência digital essencial. Saber formular perguntas é uma habilidade que atravessa séculos e ainda define a qualidade do conhecimento que recebemos.

Em síntese, seja na Antiguidade ou na era digital, permanece atual o mesmo princípio: a qualidade da resposta depende da qualidade da pergunta, mesmo em nossos relacionamentos pessoais.

 

ANTONIO CARLOS TÓRTORO
Ex-presidente da ARL – Academia Ribeirãopretana de Letras
www.tortoro.com.br
[email protected]

 

ARL- ACADEMIA RIBEIRÃOPRETANA DE LETRAS, ARTIGOS, LITERATURA