VÍDEO COMPLETO DO ENCONTRO:
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Pigmalião
(Ely Vieitez Lisboa – Em “Os Girassóis de Girona” – FUNPEC, 2012)
Conto premiado no Concurso Estadual Projeto Mapa Cultural Paulista/98, promovido pela Secretaria da Cultura do Estado de São Paulo.
O cinzel esculpe o mármore, que se entrega com doçura. A intenção vem antes, pré-concebida, ou aos poucos é a imagem que se impõe? Os cabelos meio revoltosos não são pedra; têm a leveza de plumas. A testa ampla se alarga, com tênues sinais, como se pensativa estivesse. Após as bastas sobrancelhas, em doce arqueado, rasgam-se os olhos. São amplos e a brancura marmórea sugere laivos esverdeados, profundezas. A pupila está viva. Após o nariz reto, perfeito, para e fica a idealizar a boca, os lábios grossos, entreabertos. Não há pressa. Há mais gozo entre a idealização e o fazer, que após o ato pronto. Alisa o mármore, onde será a boca; os dedos acariciam, esquecidos do cinzel.
Só no dia seguinte, feitos os lábios, cuidou do queixo. Arredondado, proeminente, arrogante. Ela ficou extasiada diante do rosto quase pronto. De onde vinha tanta beleza? Da face larga, dos zigomas salientes? Jamais sentira isso, diante de obra sua. Não eram suas mãos que cinzelavam. Uma força interna guiava-a como se a figura estivesse no seu interior e quisesse nascer. Ela ia se desprendendo, através da cinzelagem. Uma libertação. Ele estava dentro dela e nascia. E por que o alvoroço, o tremor, o calor tomando-a, só a olhar aquele rosto, o seu rosto, o rosto dele, do amado que estava por vir?
Após a modelagem do ombro e a parte do tronco, teve medo. Ou foi para espaçar mais o gozo, o prazer da realização, da chegada? Levou dias ensaiando iniciar as mãos. Meu Deus, as mãos de um homem! Elas dizem tudo, exprimem mais a alma que os próprios olhos. Conquistam, acariciam, prendem, subjugam, seduzem. São portos, tenazes, instrumentos de carícias, arroubos. Ela passou dias e dias desenhando, delineando, em uma cinzeladura milimétrica, quase um ritual.
– Meu doce amado! Onde estás? De onde vens? Por que teimas tanto em vir, emergir de regiões abissais?
Estarei louca, conversando com ele? Mas seus olhos, o meio sorriso, o ar sedutor… Ele me atrai e me induz a falar-lhe. As mãos parecem vivas, prontas para enlaçar- -lhe a cintura, puxando-a para si. Cobriu a escultura e saiu. Precisava de ar, de céu, de muita claridade. Passava dias e dias no ateliê e pensava renitentemente em retomar o trabalho, com obsessão.
Foi no sétimo dia que notou. Sempre que deixava a estátua, no dia seguinte, ela estava mais perfeita. As linhas se harmonizavam, eternizavam-se no mármore. Algo, alguma coisa aperfeiçoava o feito na véspera.
Modelou as pernas rijas, roliças, musculosas. Podiam-se ver as veias delineadas. Os pés eram dois pedestais mistos de elegância e força. Encantava-se cada vez mais com ele. Olhou para o vago entre a confluência das coxas e teve medo. Lá estava a pedra bruta, intocada. Como modelar-lhe o sexo? Ele era o símbolo maior, objeto de desejo. Cobriu a estátua e fugiu.
Três dias depois voltou. Ele sorriu para ela, convidando? Era um queixume? Reprimenda por sua fraqueza? O aço do cinzel queimava-lhe as mãos. Então ousou. Cuidadosamente, com infinita ternura, foi moldando o sexo. Mal respirava, tinha o coração acelerado e as têmporas úmidas.
Quando terminou, olhou-o maravilhada, íntima, cúmplice. Ajoelhou e beijou o pênis, que não estava adormecido, marmoreamente rígido, mas tépido, vivo. Tomada de grande alegria, ela levantou-se, afastou-se e viu sua obra completa.
– Parla! Gritou ela, tocando-a. Rindo, chorando, murmurava quase uma prece: Vive, vive para mim!
À noite, finalmente, conseguiu acalmar-se. A casa era toda penumbra e seu quarto, ao lado do ateliê, estava em silêncio. Ela ficou nua, escovou os cabelos, perfumou-se, deitou-se. Os olhos lúcidos, na semiescuridão, eram faróis à espera. Quanto tempo passou em vigília?
Aos poucos o êxtase diminuiu, veio vindo uma paz, como um prêmio. Cerrou os olhos. Nem percebeu quando ele se deitou ao seu lado, abraçou-a, envolvendo-a em um abraço forte, morno. Os dois corpos eram um só sobre o alvo lençol.
COMENTÁRIOS SOBRE O MATERIAL ACIMA:
Eu admiro em vocês, escritores e poetas, a habilidade de imaginação, de ideias originais e inovadoras. Ao ouvirem a explanação do Tórtoro, o texto foi ganhando novas camadas de significado e complexidade.
Ao caminhar, vocês observam o mundo ao redor com uma atenção aguçada, não apenas veem mas, percebem destalhes, cores, formas, sons cheiros.. Esta observação atenta é a matéria prima de suas criações… Minha experiência como gestor, trouxe-me uma abordagem mais estruturada e logica. Desenvolvi habilidades de liderança, tomada de decisões, resolução de problemas…
Esvrevi meu livro, ao mesmo tempo, buscando informações à medida que a história se desenvolvia. Minha matéria prima é a pesquisa.
Diante de vocês senti minha pequenez, quanto á criatividade.
MARIA AMÉLIA ZUCCOLOTTO – Colega de ARE – Academia Ribeirãopretana de Educação
Boa tarde, amigo.
Foi ótima sua participação no encontro cultural.
Eu lera há muito tempo o conto da Ely, que pensava estar no livro, Cartas à Cassandra, mas não consegui achá-lo ,sem muito tempo e com pilhas de livros nas estantes e armários.
Quando ouvi seus comentários, vi que o havia lido em Os Girassóis de Girona, o que me ajudou muito.
Gostei muito também das provocações.
Abraço.
NELY CYRYNO – Colega de ARE – nAcademia Ribeirãopretana de Educação