FRATER AD FRATEM
Homenagem a Waldomiro Waldevino Peixoto
(Proferida nos tempos serenos do entardecer da vida)
“Como é bom e agradável quando os irmãos convivem em união!”
Salmos 133:1-3
Meus caros leitores e amigos:
Permitam-me ocupar-lhes alguns instantes com palavras que não nascem do improviso, mas da alma — e da memória. À medida que os dias avançam e a ampulheta da vida vai escoando, aprendemos que o essencial se resume não ao que acumulamos, mas ao que construímos com o coração.
Chegados, Waldomiro e eu, a esta etapa serena — e, por que não dizê-lo, crepuscular — da existência, quando já se pode divisar o limite do tempo que nos resta, é justo e necessário que eu erga minha voz para homenagear não apenas um amigo, mas um verdadeiro irmão de alma; unidos pelo signo de Leão.
Assim como Davi teve em Jônatas um companheiro de inabalável lealdade, também eu, ao longo das décadas, encontrei em Waldomiro essa presença firme, discreta e luminosa. A Bíblia nos fala de um amor que excedia o dos irmãos de sangue — e, de fato, só quem já teve um Jônatas na vida compreende o que significa ser amado com desinteresse, defendido com coragem e acolhido com ternura nos momentos em que tudo parece desabar.
Quando, de forma vil, fui deposto da presidência da Academia Ribeirãopretana de Letras — instituição à qual tanto me dediquei —, foi ele, Waldomiro, o único a se erguer com altivez em minha defesa. Enquanto muitos se calaram, e outros desviaram o olhar, ele se aproximou, tomou minhas dores como suas e, com dignidade silenciosa, permaneceu ao meu lado.
Mais do que isso: quando a dor maior atravessou meu lar — a dor irreparável de perder um filho — lá estava ele,presente,solidário,irmanado. Sem alardes, sem platitudes — apenas com sua presença afetuosa, oferecendo o que há de mais nobre numa amizade: a fidelidade que não exige nada em troca.
Hoje, à sombra dos anos vividos, ao contemplar a trajetória que percorremos juntos, sei que Waldomiro não foi apenas um companheiro de letras, mas o irmão que Deus escolheu para me acompanhar nesta caminhada. Um presente celestial que a vida me concedeu fora dos laços de sangue, mas dentro dos laços eternos do espírito.
Nesta altura da existência, já não aspiramos a conquistas, títulos ou reconhecimento. O que buscamos, na verdade, é a paz da consciência e a gratidão pelos encontros verdadeiros que a vida nos permitiu. E é por isso que hoje, de coração pleno, digo, de irmão para irmão: Waldomiro, tua amizade é uma herança imaterial que levarei comigo até o fim.
A ti, meu irmão, minha mais profunda gratidão, meu eterno respeito e meu amor fraterno. Que o mundo saiba, enquanto estivermos aqui — e mesmo depois — que houve entre nós uma amizade digna de ser lembrada.
Que nossas vidas, como dois rios que fluíram paralelos, encontrem um dia seu repouso na eternidade, levando consigo a beleza rara de uma amizade que resistiu ao tempo, às dores e às sombras — e que permanecerá viva, enquanto houver memória e coração.
ANTONIO CARLOS TÓRTORO
Ex-presidente da ARL – Academia Ribeirãopretana de Letras
www.tortoro.com.br
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COMENTÁRIO(S) SOBRE O ARTIGO ACIMA:
Lindo como todos seus textos. A amizade sincera,autêntica sempre está presente nos momentos difíceis em nossa jornada de vida terrestre e transcende a materialidade.Sao laços espirituais indissolúveis.Feliz é o homem que tem um amigo para todos momentos
JOSÉ VICENTE SPARANO – um amigo.
