ARTIGO: SETE REVISÕES “CRONOSLÓGICAS”

SETE REVISÕES “CRONOSLÓGICAS”

Sempre que volto à concessionária Fiat para fazer a revisão do meu Cronos 2018, é como se pegassem meu coração com as duas mãos — com todo o cuidado — e o colocassem para reviver uma dor antiga, que se mistura a uma lembrança doce.

O Cronos vermelho Marsala — um tom sofisticado e elegante de vermelho escuro, que lembra o vinho tinto encorpado — com seus faróis requintados e seu painel ainda repleto de memória — como o sistema Uconnect por meio do qual nosso Digão ouvia suas músicas preferidas, indo para o Clube de Regatas, aos finais de semana — é mais do que um automóvel: é o último pedido do meu filho Rodrigo, que viu o carro, em época de seu lançamento, na TV, durante o programa BBB18, da Globo.

Foi ele quem me convenceu a comprar o Cronos. Estava doente, muito doente, convivendo em silêncio, com um câncer terminal, que se instalou em seu corpo sem pedir licença.

Eu via, nos olhos dele, a urgência de viver pequenas alegrias. E comprar aquele carro foi uma delas. Ele olhava para a tela da TV, apontava o dedo e dizia, com um brilho nos olhos que disfarçava a dor, mas não conseguia esconder o cansaço.: “Pai, esse aí… esse é bonito”.

Compramos. Ele sorriu. E esse sorriso valeu cada centavo, cada assinatura, cada parcela. Foi sua última escolha prática, sua última vontade atendida.

Mas o Cronos nunca foi confortável para ele.

A cada ida ao hospital, ele reclamava baixinho das dores que aumentavam quando se sentava. Mesmo assim, nunca deixou de apreciar o mundo passando pela janela, sentindo um pouco da vida do lado de fora da doença.

E foi assim até a última vez…

Um mês depois da compra, Rodrigo se despediu de mim e da vida — rápido demais, como tudo que é precioso demais para durar.

Desde então, passaram-se sete anos. Sete revisões. Sete idas à concessionária que, para mim, são quase como visitas a um momento congelado no tempo. Não há mecânico que saiba disso. Não há agendamento que mencione o luto. Mas eu sei. Toda vez que me sento na sala de espera e entrego a chave do Cronos, é como se entregasse de novo um pedaço do meu coração.

E espero, olhando, no passado, para um dia especial, em julho de 2018, ao lado do Rodrigo e minha esposa Lu.

Enquanto espero, revivo a conversa com o vendedor, a compra, o último sorriso do comprador.

Mas o indesejável futuro chegou, levando nosso Digão antes que ele completasse trinta e seis anos de vida, num dia inesquecível de agosto.

Mas o carro ficou. Fiel. Silencioso. Guardando no porta-luvas, invisíveis aos olhos, as lembranças de um filho que partiu cedo demais.

É bom voltar à concessionária Fiat, mas é doloroso porque há amor demais guardado nos bancos do Cronos, nessas revisões agendadas com antecedência, nessa rotina mecânica que, mesmo assim, para mim, é sagrada.

Manter o carro rodando, é para Lu e eu, como manter Rodrigo por perto.

 

E enquanto o Cronos continuar a rodar, ele continuará conosco — entre curvas de estradas, cruzamentos de ruas, revisões e memórias que não se apagarão jamais.

 

ANTONIO CARLOS TÓRTORO
Ex-presidente da ARL – Academia Ribeirãopretana de Letras
www.tortoro.com.br
[email protected]

 

COMENTÁRIO(S) SOBRE O ARTIGO ACIMA:

 

Lindo texto!!!!
Com ele vieram as memórias daqueles dias difíceis sem o nosso Digão.
Lembro sempre dele,  entrando na minha casa,  contente,  falando “Oi tia, oi Paulinho “, para fazer companhia e se divertir com  seu primo irmão …
ARLETE A. DEGOBBI BÉRGAMO – Minha cunhada

 

ARL- ACADEMIA RIBEIRÃOPRETANA DE LETRAS, ARTIGOS, BIOGRAFIA, LITERATURA