ARTIGO: APEDREJAMENTOS DE ONTEM E DE HOJE

 

APEDREJAMENTOS DE ONTEM E DE HOJE

 

Na história da humanidade, poucos símbolos são tão marcantes e inaceitáveis quanto o da pedra arremessada contra alguém que ousou defender uma causa justa. A série Paulo, na TV Record, mostrou Estevão, o primeiro mártir cristão, que foi apedrejado por proclamar sua fé e por defender princípios que ameaçavam as estruturas do poder religioso de sua época. Ele morreu em nome da verdade, envolto não em coroas, mas em pedras, não em aplausos, mas em acusações.

Essa cena trágica e emblemática repete-se, ainda que em novas roupagens, nos tempos modernos. Hoje, os apedrejamentos não se dão mais com rochas nas mãos, mas com palavras afiadas, postagens impiedosas, julgamentos públicos sumários e linchamentos virtuais. As redes sociais tornaram-se arenas onde muitos são exaltados num dia e destruídos no outro — por vezes pelas mesmas vozes.

Vivemos, cada um de nós, os dois lados dessa caminhada.

Temos nossos momentos de “Domingo de Ramos”, quando somos reconhecidos, elogiados, admirados, quando nossas ações são celebradas e nossos nomes são lembrados com carinho.

Mas não tardam os dias de pedras.

Basta que defendamos algo que contrarie o espírito da época, que nos posicionemos por valores éticos, morais ou espirituais, e logo enfrentamos o tribunal da opinião pública.

Não é coincidência.

Quem se posiciona por causas justas frequentemente incomoda. A integridade moral denuncia o oportunismo alheio. A fé viva provoca a religiosidade morna. A justiça escancara as feridas da indiferença. E isso incomoda — sempre incomodou.

A vida, infelizmente, alterna-se entre louros e espinhos, entre palmas e silêncios, entre honra e desprezo. E essa oscilação é antiga. Jesus, aclamado na entrada triunfal em Jerusalém, foi crucificado poucos dias depois pelos mesmos que gritavam “Hosana”. O povo é volúvel, o mundo é inconstante. E quem caminha com verdade precisa aprender a suportar tanto os aplausos quanto as pedradas.

Ainda assim, vale a pena.

Como Estevão, como tantos outros mártires da ética e da dignidade, precisamos ter coragem de defender o bem, mesmo que isso nos custe o conforto ou a reputação. Que saibamos acolher os dias de glória com humildade e enfrentar os dias de pedra com firmeza. Porque, no fim das contas, é melhor ser ferido por defender um valor do que ser aplaudido por trair a própria consciência.

A vida sempre foi assim — e, ao que tudo indica, sempre será. Mas isso não nos impede de escolher qual lado da história queremos escrever com nossas atitudes: o dos que apedrejam… ou o dos que, mesmo feridos, seguem defendendo o que é justo.

 

ANTONIO CARLOS TÓRTORO
Ex-presidente da ARL – Academia Ribeirãopretana de Letras
www.tortoro.com.br
[email protected]

 

ARL- ACADEMIA RIBEIRÃOPRETANA DE LETRAS, ARTIGOS, LITERATURA