POEMA: TERERÊ NOS SONHOS

 

 

TERERÊ NOS SONHOS

Eu, poeta, caminhava pela praia
carregando um caderno invisível
debaixo do braço.
O mar escrevia com espumas,
o sol bordava brilhos com seus raios,
e a areia guardava segredos nos meus pés descalços.
Foi quando vi a África diante de mim.
A africana, sentada sobre a toalha macia da areia branca,
trançava o tempo nos cabelos das meninas da praia.
Seus dedos, ágeis como pássaros,
entrelaçavam fios,
com a paciência das antigas avós, contando histórias
que atravessaram mares.
Cada tererê era um caminho.
Cada miçanga, uma estrela pousada na imaginação da criança.
O poeta parou, não por falta de passos,
mas por excesso de imaginação.
E se ela trança cabelos,
por que não posso trançar meus sonhos com versos.
E ali, com o sal do mar e o tempero da memória,
decidi fazer meu tererê
em minhas próprias madrugadas.
Passei a entrelaçar versos curtos com silêncios longos,
miçangas de metáforas com fios de lembranças africanas,
ritmos antigos com o pulsar vibrante do litoral.
Fiz tererê no medo.
Fiz tererê da saudade.
Fiz tererê do amor ainda sem nome.
Descobri que poesia também é trançar,
é pegar fios soltos da vida,
e dar-lhes novos desejos.
E a praia ganhou novos penteados.
E eu, poeta, um novo jeito de sonhar.

 

ANTONIO CARLOS TÓRTORO
Ex-presidente da ARL – Academia Ribeirãopretana de Letras
www.tortoro.com.br
[email protected]

 

ARL- ACADEMIA RIBEIRÃOPRETANA DE LETRAS, LITERATURA, Poemas