UM ATÉ BREVE QUE ECOA NA ALMA DE RIBEIRÃO PRETO
Li, com emoção contida, o artigo publicado na revista Revide, edição de 27.02.26: “Um Até Breve Ribeirão!”, de Marcos Botelho.
Não se tratava apenas de uma despedida formal. Era um gesto de gratidão. Era quase uma carta aberta à cidade — dessas que não se escrevem com tinta, mas com memória.
Ao evocar as palavras de Dom Pedro I em sua carta de 12 de abril de 1831, o autor já nos preparava para o tom da despedida: não sendo possível agradecer individualmente a cada amigo, faz-se do texto um abraço coletivo. E que abraço!
Durante quase vinte anos, Ribeirão Preto foi palco de uma trajetória de crescimento pessoal e profissional do autor. Mais do que isso: foi solo fértil de vínculos afetivos, de construção de identidade, de pertencimento. A cidade, chamada com justiça de capital do agronegócio, é também — como bem afirmou o articulista — a verdadeira capital do interior do Brasil. Capital de histórias, de cultura, de encontros, de sotaques que aquecem o ouvido e o coração.
Mas confesso: ao terminar a leitura, senti tristeza.
Ribeirão Preto não perde apenas um gestor competente. Perde um verdadeiro mecenas. Um homem que compreendeu que shopping center não é apenas espaço de consumo, mas pode ser também território de cultura, arte e memória.
Sob sua liderança no Shopping Santa Úrsula, a literatura/cultura encontrou abrigo, incentivo e reconhecimento.
Foi ali que meu livro REPERCUTINDO EDUCAÇÃO recebeu apoio. Foi ali que edições de O PASSADO MANDA LEMBRANÇA, produzido quando eu integrava o Grupo Amigos da Fotografia, ganharam espaço e dignidade. Foi ali produzido o livro TRIBUTO A ROD – A SAGA DE UM JOVEM GUERREIRO, que conta a breve existência do meu falecido filho, Rodrigo Degobbi Tórtoro.
Não foram apenas patrocínios. Foram gestos de confiança na palavra escrita, na memória preservada, na educação como legado.
Quantas vezes fui recebido na sala de Marcos Botelho, no Santa Úrsula, com cordialidade sincera? Quantas conversas sobre cultura, cidade, projetos e sonhos? Sempre havia atenção. Sempre havia respeito. Sempre havia aquele olhar que dizia: “A arte importa.”
Em tempos em que a cultura muitas vezes luta para sobreviver, encontrar alguém que a apoie não por vaidade, mas por convicção, é raro. Raríssimo.
Ribeirão Preto já se orgulhou — e continuará se orgulhando — de grandes e inesquecíveis figuras.
Agora, soma-se a essa galeria silenciosa de construtores de legado mais um nome que parte, mas não se apaga.
Partir não é desaparecer. É mudar de cenário.
Ficam as obras apoiadas. Ficam os livros lançados. Ficam os autores incentivados. Fica a cidade que aprendeu, também por sua ação, que desenvolvimento econômico e desenvolvimento cultural não são rivais — são irmãos.
Hoje, a despedida é dele.
Mas a gratidão é nossa.
Que seja, de fato, um “até breve”.
Porque cidades não são feitas apenas de prédios, avenidas e cifras.
São feitas de pessoas que acreditam nelas.
E algumas pessoas deixam marcas que o tempo não apaga: Marcos Botelho é, com certeza, uma dessas figuras.
ANTONIO CARLOS TÓRTORO
Ex-presidente da ARL- Academia Ribeirãopretana de Letras
www.tortoro.com.br
[email protected]
