ABSALÕES
“Quando o filho levanta a mão contra o pai: uma dor antiga da humanidade”
Há acontecimentos que parecem tão absurdos que nos fazem perguntar se o mundo perdeu o rumo.
Um pai tentar impedir o erro de um filho e, em troca, receber violência é o resultado.
Para quem presencia ou vive algo assim, a sensação é de ruptura: rompe-se a ordem natural das coisas, pois imaginamos que a relação entre pais e filhos deveria ser marcada apenas pelo cuidado e pela gratidão.
Entretanto, infelizmente, quando olhamos para a história humana — e também para os textos bíblicos — percebemos que esse drama não é novo. Ele acompanha a humanidade desde tempos antigos.
A própria Bíblia registra conflitos profundos entre pais e filhos.
Um dos episódios mais conhecidos é o da rebelião de Absalão contra seu pai, o rei Davi, narrado no livro de Segundo Livro de Samuel. Absalão não apenas desobedece o pai: ele organiza uma revolta política contra ele, toma Jerusalém e provoca uma guerra. O drama atinge tal intensidade que Davi precisa fugir para preservar a própria vida.
Mesmo diante dessa rebelião, o coração do pai permanece marcado pelo amor. Antes da batalha final, Davi pede aos soldados que tratem Absalão com brandura. E quando recebe a notícia de sua morte, pronuncia um dos lamentos mais dolorosos da literatura antiga:
“Meu filho Absalão, meu filho, meu filho Absalão! Quem me dera morrer em teu lugar!” (2 Samuel 18:33).
Esse episódio mostra que o conflito entre gerações, por mais doloroso que seja, não é uma invenção de nosso tempo. A Bíblia também registra advertências sobre filhos que rejeitam a orientação dos pais. No livro de Provérbios, lê-se:
“O filho sábio ouve a instrução do pai, mas o zombador não escuta a repreensão” (Provérbios 13:1).
Esses textos revelam algo profundo: a liberdade humana sempre trouxe consigo o risco da ruptura. O pai pode aconselhar, orientar, tentar impedir o erro — mas não pode substituir a consciência do filho.
Diante de um acontecimento tão doloroso como a agressão de um filho contra o próprio pai, surge uma pergunta inevitável: por que o Universo permite isso?
Essa pergunta atravessa religiões, filosofias e reflexões espirituais ao longo da história. Uma possível resposta está na própria condição humana. O Universo — ou, na linguagem religiosa, Deus — parece ter concedido ao ser humano algo extraordinário e perigoso ao mesmo tempo: o livre-arbítrio.
A liberdade de escolher também inclui a possibilidade de errar, de ferir e até de destruir aquilo que deveria proteger.
Se não existisse liberdade, talvez não existisse violência entre pais e filhos. Mas também não existiriam amor consciente, responsabilidade moral nem crescimento espiritual.
Sob uma perspectiva mais ampla, alguns pensadores sugerem que experiências dolorosas também fazem parte de um processo maior de aprendizado humano. A dor expõe limites, revela fragilidades e convida à reflexão. Muitas vezes ela nos obriga a perguntar: O que significa educar?
O que significa amar? Até onde vai a responsabilidade de um pai? Até onde vai a liberdade de um filho?
O próprio drama de Davi e Absalão parece conter essa dimensão trágica da existência. O pai não deixa de amar, mesmo quando o filho se perde. O amor permanece como uma espécie de força cósmica que resiste à violência.
Talvez o Universo permita essas rupturas justamente porque o amor verdadeiro não é imposto — ele é escolhido. E somente num mundo em que existe a possibilidade de rejeição é que o amor pode revelar toda a sua grandeza.
Para quem sofre uma situação como essa, nenhuma reflexão filosófica diminui imediatamente a dor. Mas olhar para a história humana e para os textos sagrados pode trazer uma compreensão importante: essa tragédia não é um sinal de fracasso individual isolado; ela faz parte da complexa e antiga condição humana.
Desde tempos bíblicos até hoje, pais continuam tentando orientar os filhos, filhos continuam lutando com suas próprias escolhas, e o amor continua tentando sobreviver às falhas humanas: talvez, no grande tecido do Universo, o verdadeiro sentido esteja justamente nisso: na persistência do amor mesmo quando a liberdade humana produz feridas.
ANTONIO CARLOS TÓRTORO
Ex-presidente da ARL – Academia Ribeirãopretana de Letras
www.tortoro.com.br
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