CARTA ABERTA AOS “LITERATOS” DE PLANTÃO
“Os que sobem pisando: a crítica como muleta de sobrevivência em grupos literários”
Há grupos em que o talento circula com leveza. Há outros em que ele é vigiado, medido, reduzido — e, se possível, abafado. Nos meios literários, infelizmente, não é raro encontrar indivíduos que transformam a crítica em instrumento de sobrevivência social. Não para aprimorar o outro, mas para se sustentar acima dele.
Não se trata de necessidade — mas de escolha.
Essas figuras parecem viver de um mecanismo simples: diminuem o brilho alheio para manter acesa uma luz própria que, sozinha, talvez não resistisse. Criticam não por rigor estético, mas por insegurança disfarçada de erudição. E, curiosamente, muitas vezes se escoram em credenciais formais — um curso de Letras, um título acadêmico — como se isso lhes conferisse monopólio da sensibilidade ou da criação.
É nesse ponto que o equívoco se torna evidente.
A literatura não é propriedade de diploma. Não nasce em departamentos universitários. Ela brota da experiência, da leitura, da escuta interior — e, sobretudo, da necessidade humana de expressão. Foi assim com Cora Coralina, doceira, mulher simples, que publicou seu primeiro livro aos 75 anos, sem jamais ter passado por academias formais de letras. Ainda assim, sua obra atravessou o país, tocou leitores, permaneceu.
Quantos dos críticos de ocasião podem dizer o mesmo?
Em muitos círculos literários locais, cria-se uma espécie de hierarquia informal, onde alguns se colocam como guardiões da “verdadeira literatura”. São, por vezes, mais conhecidos por suas posições institucionais do que por suas obras. E, nesse cenário, surge um fenômeno curioso: o escritor que não pertence ao grupo — ou que vem de outra área, como a Matemática ou a Física — torna-se alvo fácil.
Não porque escreva mal, mas porque escreve apesar de não ter seguido o rito esperado.
E isso incomoda.
Há, inclusive, um tipo recorrente na tradição literária: o personagem que usa o outro como degrau. Em Ilusões Perdidas, de Honoré de Balzac, vemos o jovem Lucien de Rubempré sendo envolvido por um meio literário e jornalístico onde a crítica é vendida, manipulada e usada como moeda de ascensão social. Ali, o talento importa menos do que a capacidade de se alinhar aos interesses e de destruir reputações quando conveniente. A crítica deixa de ser análise e passa a ser estratégia.
Balzac não estava descrevendo apenas o seu tempo. Estava revelando um padrão humano.
O mesmo se repete, em menor escala, nos grupos atuais: escritores que não leem profundamente, mas opinam com autoridade; que, por vezes, desconhecem autores fundamentais, mas julgam com rapidez; que produzem pouco, mas avaliam muito. São, como bem se poderia dizer, mais “escrevinhadores” do que escritores — sustentados não pela força da obra, mas pelo eco de seus cargos.
Enquanto isso, o verdadeiro criador segue outro caminho.
Ele lê. Ele escreve. Ele erra. Ele reescreve. Ele não precisa diminuir ninguém para existir, porque sua obra fala por si — ainda que em silêncio, ainda que fora dos holofotes locais.
Ser chamado de “não literato” pode, nesse contexto, ser menos uma crítica e mais um elogio involuntário. Significa não estar preso a um sistema que confunde título com talento e posição com profundidade.
A história literária, aliás, é implacável com esses equívocos. Ela não preserva cargos. Não registra vaidades locais. Ela guarda apenas aquilo que resiste ao tempo.
E o tempo, diferente dos grupos, não bajula ninguém.
ANTONIO CARLOS TÓRTORO
Ex-presidente da ARL- Academia Ribeirãopretana de Letras
www.tortoro.com.br
[email protected]
