ARTIGO: VÊNUS E A LUA NUMA NOITE FRIA

 

VÊNUS E A LUA

 

Numa noite fria de final de junho, o céu vestiu-se de mistério e silêncio.

Sobre o imenso palco coberto de veludo negro, cuidadosamente providenciado pela noite, Vênus encantou-se com a Lua.

Foi um encontro sem palavras, mas pleno de linguagem.

Trocaram brilhos como se trocam olhares de amor: lentos, profundos, quase eternos.

Vênus ardia com a intensidade dos apaixonados; a Lua respondia com sua luz serena, suave e acolhedora. E o firmamento inteiro pareceu deter o tempo para contemplar aquela cena romântica que lembrava a Bandeira da Turquia.

Aqui embaixo, na Terra, a maioria dos mortais ignorava o espetáculo.

Muitos permaneciam fechados em suas rotinas, distraídos pelas preocupações humanas, sem perceber que o universo encenava uma das mais belas declarações silenciosas já vistas.

Poucos, muito poucos, ergueram os olhos e sentiram algo diferente pulsando no infinito.

Enquanto isso, o Diretor da peça, o Grande Arquiteto do Universo  observava sua criação com discreta satisfação: — uma peça desconhecida pela maioria dos habitantes da Terra.

Em gesto quase divino, admirava sua obra e espargia estrelas sobre o momento único, como quem espalha flores luminosas sobre amantes destinados ao encontro.

Cada estrela parecia acesa de propósito. Cada ponto brilhante transformava o céu numa catedral de luz.

E o frio daquela noite de junho deixava tudo ainda mais íntimo, mais profundo, mais humano.

Talvez o universo possua sentimentos que ainda não compreendemos. Talvez os astros também saibam amar. Ou talvez Deus, artista supremo do infinito, goste apenas de recordar aos homens que existe beleza acima das dores da Terra.

Naquela noite, Vênus e a Lua não iluminaram apenas o céu. Iluminaram a esperança daqueles que ainda conseguem parar, respirar e olhar para o alto em busca de poesia.

 

ANTONIO CARLOS TÓRTORO
Ex-presidente da ARL -Academia Ribeirãopretana de Letras
www.tortoro.com.br
[email protected]

 

ARL- ACADEMIA RIBEIRÃOPRETANA DE LETRAS, ARTIGOS, FOTOGRAFIA, LITERATURA

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