ORIENTAÇÃO EDUCACIONAL E O BULLYING NA ESCOLA
Bullying na escola: quando ouvir, registrar e intervir pode evitar a violência
Um episódio de violência ocorrido em uma escola particular, no qual um aluno feriu um colega, chama a atenção não apenas pelo ato em si, mas principalmente pelo que pode ter acontecido antes dele.
Segundo o relato divulgado, o aluno envolvido alegou que vinha sofrendo bullying. Sua mãe afirmou que já havia procurado ajuda da escola, mas que, em sua avaliação, não foram tomadas providências capazes de impedir que a situação chegasse a um desfecho tão desagradável e doloroso para todas as partes envolvidas.
Sem conhecer todos os detalhes do caso e sem pretender estabelecer responsabilidades sobre um episódio específico, considero importante refletir sobre uma questão essencial: o que uma escola deve fazer quando um aluno ou sua família comunica que está ocorrendo bullying?
Durante muitos anos de meu trabalho como Orientador Educacional em escola particular, desenvolvi um procedimento que se mostrou extremamente eficiente.
Sempre que uma mãe, um pai ou o próprio aluno me procurava afirmando estar sofrendo bullying, a primeira providência era ouvir.
Mas ouvir apenas a possível vítima não era suficiente.
Eu conversava individualmente com os alunos envolvidos, procurando compreender o que estava acontecendo, como os fatos haviam começado, quais comportamentos estavam se repetindo e qual poderia ser a responsabilidade de cada participante naquela situação.
O objetivo não era simplesmente encontrar um culpado e puni-lo. Era chegar à compreensão do problema e, sempre que possível, a um consenso sobre a participação e a responsabilidade de cada um.
Registrar também é educar
Havia outro cuidado que considero fundamental: tudo era registrado.
Na ficha individual de cada aluno envolvido, eu anotava sua participação na ocorrência, a data e os assuntos tratados.
Em seguida, os pais ou responsáveis eram comunicados. Eu lhes apresentava a situação e me colocava à disposição para quaisquer esclarecimentos adicionais que julgassem necessários.
A direção da escola também era informada.
Dessa maneira, o problema deixava de ser apenas uma conversa informal de corredor. Passava a existir uma sequência institucional de procedimentos:
ouvir, investigar, orientar, registrar, comunicar e acompanhar.
Todos os envolvidos eram claramente avisados de que aquele comportamento não deveria voltar a ocorrer.
Ao aluno que se sentia vítima, eu fazia uma recomendação igualmente importante: diante de qualquer nova ocorrência que ultrapassasse os limites normais das relações entre colegas, deveria procurar imediatamente um responsável da escola.
Ele precisava saber que não estava sozinho e que não deveria esperar que pequenos episódios se acumulassem até que a situação se tornasse insuportável.
A escola precisa acompanhar, não apenas reagir
Esse registro sistemático tinha ainda outra finalidade.
Caso surgisse posteriormente uma ocorrência mais grave, a escola possuía um histórico: datas, fatos, alunos envolvidos, providências tomadas, conversas realizadas e contatos mantidos com as famílias.
Isso permitia acompanhar a evolução do problema e não começar do zero a cada nova reclamação.
Há, entretanto, outro aspecto delicado que não pode ser ignorado.
Em determinadas situações, eu percebia que o aluno que se sentia vítima apresentava algum comportamento, dificuldade de relacionamento ou característica pessoal que fazia com que os colegas o considerassem “diferente”.
Isso jamais justificava agressões, humilhações ou perseguições.
Ao contrário: indicava que aquele aluno talvez também necessitasse de apoio específico para compreender as relações do grupo, fortalecer sua autoestima, desenvolver recursos de convivência e enfrentar aquela situação de maneira saudável.
Nesses casos, eu solicitava a intervenção do psicólogo da escola ou, quando mais adequado, sugeria aos pais que procurassem um profissional de sua confiança.
Ao mesmo tempo, o trabalho educativo com os demais alunos continuava. Ser diferente nunca pode constituir autorização para humilhar alguém.
Bullying não deve ser tratado como “coisa de criança”
Um dos maiores perigos diante do bullying é sua banalização.
“São coisas da idade.”
“Depois eles se entendem.”
“Foi apenas uma brincadeira.”
“Não dê importância.”
Dependendo da situação, essas frases podem contribuir para que um problema aparentemente pequeno cresça silenciosamente.
É necessário distinguir conflitos comuns entre crianças e adolescentes de situações persistentes de intimidação, humilhação, isolamento ou agressão. Nem todo desentendimento é bullying. Entretanto, toda denúncia merece ser ouvida e analisada.
A escola não deve condenar antecipadamente ninguém, mas também não deve simplesmente esperar para ver o que acontece.
É preciso intervir antes que a violência intervenha.
Orientação Educacional é presença
Em minha experiência profissional, esse acompanhamento próximo produziu um resultado do qual sempre me recordo: não tive casos de reincidência após as intervenções realizadas dessa maneira.
Não atribuo isso simplesmente à existência de fichas ou registros. O papel era apenas uma parte do processo.
O fundamental era o aluno perceber que havia sido ouvido; o outro compreender que seus atos tinham consequências; as famílias saberem que a escola estava acompanhando; a direção estar ciente; e todos entenderem que haveria continuidade no acompanhamento.
Orientação Educacional não pode existir apenas depois que algo grave acontece.
Orientar é, sobretudo, antecipar-se.
É perceber os sinais antes do grito.
É ouvir a reclamação antes que ela se transforme em desespero.
É transformar conflitos em oportunidades educativas antes que eles se transformem em violência.
Quando ocorre uma agressão grave dentro de uma escola, todos acabam perdendo. Perde quem foi ferido. Perde quem feriu. Sofrem as famílias. Sofrem os colegas. Sofrem os professores. Sofre a própria comunidade escolar.
Por isso, diante da primeira informação de possível bullying, talvez a pergunta mais importante não seja:
“Quem é o culpado?”
A primeira pergunta deveria ser:
“O que está acontecendo aqui e o que podemos fazer, agora, para que isso não se agrave?”
Essa é uma das grandes responsabilidades da Orientação Educacional.
Porque educar não significa apenas agir depois do acontecimento.
Educar também significa perceber, ouvir, registrar, acompanhar e intervir a tempo.
ANTONIO CARLOS TÓRTORO
Ex-presidente da ARL – Academia Ribeirãopretana de Letras
www.tortoro.com.br
[email protected]
