OS SETENTA E SETE
Amanhã, 22 de agosto de 2026, o calendário me entregará um presente raro: setenta e sete anos de vida.
Durante muito tempo, os aniversários significavam apenas a soma dos anos. Hoje, representam algo muito maior. Cada aniversário é a confirmação de que atravessei tempestades que um dia pareciam intransponíveis, sobrevivi a dores que imaginei eternas e permaneci de pé quando muitos imaginavam que eu cairia.
Há, porém, uma coincidência que torna este aniversário ainda mais simbólico.
Segundo os ensinamentos da AMORC, ordem na qual tive a honra de alcançar elevados graus de estudo, o dia 22 de agosto marcará também o encerramento do meu ciclo anual de sete períodos de cinquenta e dois dias. Termina, assim, aquele período tradicionalmente conhecido como inferno astral, fase de recolhimento, provas, revisão interior e encerramento de experiências.
No dia seguinte, 23 de agosto, iniciarei um novo ciclo de cinquenta e dois dias, considerado pela tradição Rosacruz o mais favorável de todo o ano: um tempo de renovação, criatividade, expansão e novas realizações.
Gosto dessa ideia.
É como se a própria natureza dissesse que nenhuma noite é eterna. Que todo inverno termina. Que toda árvore, por mais seca que pareça, guarda silenciosamente a promessa de uma nova primavera.
E então surge o número 77.
Na Matemática, ele é apenas o produto de sete por onze. Mas, para quem gosta dos símbolos, ele parece dizer muito mais.
O sete sempre representou a plenitude dos ciclos. Duas vezes sete parece sugerir que a vida concedeu tempo suficiente para aprender, errar, recomeçar, amar, perder e reconstruir.
Aos setenta e sete anos, já não existe tanta ansiedade para conquistar o mundo. Em compensação, cresce a vontade de compreender seu significado.
Talvez esse seja o verdadeiro privilégio da longevidade.
Chegar aos setenta e sete anos não significa apenas ter vivido muito. Significa ter acumulado histórias suficientes para entender que a felicidade nunca foi permanente, mas também nunca deixou de voltar.
Aprendi que amizades mudam. Que pessoas partem. Que algumas portas se fecham para sempre. Mas aprendi também que Deus, o Universo — ou como cada um prefira chamar a Inteligência Suprema — sempre abre uma janela quando temos coragem de continuar caminhando.
Por isso, não vejo meus setenta e sete anos como um ponto de chegada.
Vejo-os como um novo portal.
Se a tradição Rosacruz estiver certa, iniciarei o melhor ciclo do meu ano exatamente quando iniciar também meu septuagésimo sétimo ano de vida.
E, se houver algo de verdadeiro nessa misteriosa linguagem dos números e dos ciclos, desejo atravessar esse portal com o mesmo entusiasmo de um jovem e com a serenidade que somente o tempo consegue ensinar.
Porque envelhecer é inevitável.
Mas continuar renascendo é uma escolha.
E, aos setenta e sete anos, continuo acreditando que ainda existem muitas páginas em branco esperando pela minha assinatura.
ANTONIO CARLOS TÓRTORO
Ex-presidente da ARL – Academia Ribeirãopretana de Letras
www.tortoto.com.br
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