ARTIGO: MINHA BAGAGEM

 

MINHA BAGAGEM

 

Imagino que um dia chegarei ao aeroporto para a mais longa de todas as viagens.

Não haverá familiares à porta do embarque. Não haverá amigos acenando. Não haverá necessidade de passaporte, passagem de volta ou reserva de hotel.

No enorme painel luminoso, apenas uma informação:

DESTINO: ETERNIDADE
EMBARQUE: AGORA

Chegarei sozinho.

Como todos chegam.

Levarei comigo apenas uma bagagem. Curiosamente, não terei sido eu quem a preparou. Ela terá sido arrumada durante toda a minha existência, pouco a pouco, dia após dia.

Cada atitude colocou alguma coisa dentro dela.

Cada palavra acrescentou um objeto.

Cada gesto deixou seu peso.

Cada omissão também ocupou espaço.

Ao me aproximar do balcão, entregarei minha passagem.

— Nome?

— Antônio Carlos Tórtoro.

— Destino?

— Eternidade.

O agente consultará algum registro que não consigo enxergar e apontará para uma porta.

ALFÂNDEGA — DECLARAÇÃO DE BENS DA ALMA

Sentirei certo frio no estômago.

Passei a vida viajando por tantos caminhos, mas jamais enfrentei uma fiscalização como aquela.

Colocarei minha mala sobre uma grande mesa.

O fiscal não me perguntará quanto dinheiro estou levando.

Ali, dinheiro não tem valor.

Não perguntará quantas propriedades deixei, quanto havia em minha conta bancária ou quais bens consegui acumular.

Também não estará interessado nos meus diplomas.

Nem nos títulos.

Nem nos cargos.

Nem nas homenagens.

Talvez eu tente explicar:

— Fui professor…

Ele me interromperá:

— Não perguntei qual foi sua profissão. Quero saber o que fez com ela.

Então abrirá minha mala.

Encontrará milhares de horas dentro de salas de aula.

Encontrará números, equações, teoremas, cadernos, provas e quadros cobertos de giz.

Mas procurará algo além deles.

— Quando ensinava Matemática, ensinava somente Matemática?

Pensarei durante alguns segundos.

Talvez responda:

— Procurei ensinar meus alunos a acreditarem que eram capazes. Tentei mostrar que um erro não era o fim, mas parte do caminho para aprender.

Ele anotará alguma coisa.

Continuará procurando.

Encontrará décadas dedicadas à educação, à orientação de jovens, ao diálogo com pais, professores e famílias.

— E estas pessoas?

— Muitas me procuraram quando estavam preocupadas com seus filhos.

— Você as ouviu?

Essa pergunta me atingirá profundamente.

Porque talvez, na alfândega da Eternidade, ouvir alguém seja mais importante do que discursar para multidões.

Direi:

— Tentei ouvir.

E ele perguntará:

— Mesmo quando estava cansado?

Baixarei os olhos.

Nem sempre.

Houve dias em que fui impaciente.

Houve momentos em que poderia ter sido mais compreensivo.

Houve palavras que talvez devesse ter silenciado e silêncios que talvez devesse ter transformado em palavras.

O fiscal colocará tudo sobre a mesa.

Naquela alfândega não será possível esconder nada.

Então surgirão meus livros.

Meus poemas.

Minhas crônicas.

Minhas músicas.

Meus vídeos.

Talvez eu sorria orgulhoso:

— Escrevi muito.

Mas ele não parecerá impressionado.

Pegará um poema e perguntará:

— Este texto consolou alguém?

Outro:

— Este ajudou alguém a recuperar a esperança?

Outro:

— Este despertou amor?

Outro:

— Este aproximou alguém de Deus?

Então compreenderei.

Na Eternidade, uma obra não será pesada pelo número de páginas, mas pelo bem que conseguiu produzir.

O fiscal continuará.

Encontrará academias de letras, academias de educação, presidências, homenagens, reuniões, discursos e solenidades.

Eu talvez comece a explicar cada título.

Mas ele fechará a pasta.

— Aqui não avaliamos cargos. Avaliamos serviço.

Silêncio.

— Quando teve autoridade, serviu?

Essa pergunta será muito mais difícil.

Recordarei pessoas que encontrei durante a vida.

Algumas permaneceram.

Outras passaram rapidamente.

Algumas me amaram.

Algumas me decepcionaram.

Talvez algumas tenham sido feridas por mim.

E talvez eu tenha sido ferido por outras.

Tudo estará naquela mala.

As amizades.

Os abraços.

As reconciliações.

As palavras de incentivo.

Mas também as mágoas, os ressentimentos, as impaciências e os julgamentos.

Porque a alfândega da Eternidade não procura somente aquilo que fizemos.

Procura também aquilo que deixamos de fazer quando poderíamos ter amado.

Então chegará a parte mais pesada da bagagem.

Minhas dores.

O fiscal encontrará lágrimas.

Muitas.

Algumas estarão guardadas numa pequena caixa que jamais consegui abandonar.

Ele saberá de onde vieram.

Não precisarei explicar.

Talvez apenas coloque a mão sobre elas e diga:

— Estas viajaram muito tempo com você.

Responderei:

— Sim.

Ali estarão também as enfermidades, as perdas, as injustiças, as decepções e todos aqueles momentos em que a vida pareceu retirar alguma coisa de mim.

Mas o fiscal não perguntará apenas quanto sofri.

Perguntará:

— O que você fez com o sofrimento?

Essa talvez seja uma das perguntas mais importantes daquele julgamento.

Porque sofrer, por si só, não nos torna melhores.

É aquilo que fazemos depois da dor que revela quem nos tornamos.

Então ele continuará examinando a mala.

Encontrará sementes.

Muitas sementes.

— O que são?

Talvez eu responda:

— São as coisas que tentei plantar.

Uma delas terá o nome Educação.

Outra, Poesia.

Outra, Amizade.

Outra, Esperança.

Outra, Serviço.

Outra, Perdão.

Outra, Amor.

Algumas terão germinado.

Outras, talvez não.

Algumas produziram árvores cujos frutos nunca cheguei a conhecer.

Porque existem sementes que plantamos na vida de alguém e que somente florescem muitos anos depois.

O fiscal olhará novamente para mim.

— Antônio, existe algo mais na sua bagagem?

Procurarei.

No fundo da mala haverá um pequeno espelho.

Ele o colocará diante de mim.

— Agora olhe.

Verei um homem com virtudes e defeitos.

Um homem que acertou e errou.

Que amou e algumas vezes não soube demonstrar amor.

Que ensinou, mas também precisou aprender.

Que aconselhou, mas nem sempre soube aconselhar a si próprio.

Que escreveu sobre esperança, embora também tenha conhecido profundamente a tristeza.

Um homem imperfeito.

Simplesmente humano.

Então me lembrarei das palavras de Cristo:

“Tive fome e me destes de comer; tive sede e me destes de beber; era estrangeiro e me acolhestes.”

Finalmente entenderei o critério daquela alfândega.

Não me perguntarão quantos títulos conquistei.

Perguntarão quantas pessoas respeitei.

Não perguntarão quanto acumulei.

Perguntarão quanto reparti.

Não perguntarão quantos me aplaudiram.

Perguntarão quantos ajudei a se levantar.

Não perguntarão quantos livros escrevi.

Perguntarão quantas palavras minhas aliviaram a dor de alguém.

Não perguntarão quantos alunos passaram por minhas salas.

Perguntarão se algum deles se tornou uma pessoa melhor porque nossos caminhos se encontraram.

Não perguntarão quantas vezes falei de Deus.

Perguntarão quantas vezes fui capaz de reconhecer Deus no meu semelhante.

O fiscal fechará lentamente minha mala.

Ao fundo estará o último portão.

Além dele, não conseguirei enxergar nada.

Apenas uma claridade.

Então chegará a pergunta definitiva:

— Tem alguma coisa a declarar?

Pensarei em toda a minha existência.

Nos acertos.

Nos erros.

Nos sonhos.

Nas perdas.

Nas pessoas.

Nos poemas.

Nas salas de aula.

Nas lágrimas.

Nos abraços.

Nas sementes.

E responderei:

— Tenho.

O fiscal aguardará.

— Declaro que tentei servir. Nem sempre consegui. Nem sempre acertei. Mas tentei deixar um pouco de amor nos lugares por onde passei.

Ele fechará o relatório.

Talvez sorria.

E eu compreenderei, finalmente, que não trouxe comigo absolutamente nada daquilo que durante tantos anos pensei possuir.

Trouxe apenas aquilo que ofereci.

Então ouvirei uma voz.

Não será a voz do fiscal.

Parecerá vir de todos os lugares ao mesmo tempo.

Uma voz que não perguntará pelos meus títulos, meus livros, meus cargos ou minhas conquistas.

Perguntará apenas:

— Antônio, quanto você amou?

E talvez toda a minha vida tenha sido apenas a preparação para responder a essa pergunta.

O portão se abrirá.

Pegarei minha pequena mala.

E, antes de atravessá-lo, ainda olharei para trás uma última vez.

Lá longe estará a Terra.

Minha escola.

Meus alunos.

Minha família.

Meus amigos.

Meus poemas.

As pessoas que encontrei pelo caminho.

Perceberei então que muitas das sementes que plantei continuam germinando.

E compreenderei uma última verdade:

ninguém leva para a Eternidade aquilo que guardou para si.

Levamos somente aquilo que fomos capazes de dar.

Então apertarei minha bagagem contra o peito.

E seguirei.

Sem medo.

Porque, depois de uma vida inteira preparando a mala sem perceber, terá chegado finalmente a hora do embarque.

Destino: Eternidade.

E, diante do Criador, entregarei minha bagagem aberta.

Sem esconder coisa alguma.

Esperando apenas que, entre tantas imperfeições humanas, Ele encontre nela aquilo que realmente importa:

algumas sementes de amor.

 

 

ANTONIO CARLOS TÓRTORO
Ex-presidente da ARL – Academia Ribeirãopretana de Letras
www.tortoro.com.br
[email protected]

 

 

ARE-Academia Ribeirão-pretana de Educação, ARL- ACADEMIA RIBEIRÃOPRETANA DE LETRAS, ARTIGOS, BIOGRAFIA, CURRÍCULO, LITERATURA, QUEM SOU

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