LI E GOSTEI: IMPRESSÕES DE UMA VIDA – VILIBALDO FAUSTINO JÚNIOR

 

IMPRESSÕES DE UMA VIDA: AMIZADE, RESISTÊNCIA E CAMINHOS QUE SE CRUZARAM

 

Recebi com muita alegria, de meu amigo e irmão Vilibaldo Faustino Júnior, um exemplar de seu livro Impressões de uma Vida. Mais do que receber um livro, recebi o registro de uma trajetória que, em alguns momentos, tive o privilégio de acompanhar de perto.

Na primeira página, uma dedicatória tornou o exemplar ainda mais especial:

Ao meu amigo Tórtoro, com carinho e respeito. De Vilibaldo. 07.07.2026.”

Há dedicatórias que ultrapassam a formalidade. Poucas palavras podem guardar muitos anos de convivência, respeito, amizade e histórias compartilhadas.

Logo na orelha do livro, encontramos uma reflexão que antecipa o espírito da obra:

“Ao ouvir a história de Vilibaldo e Rosana, essa imagem é a que vem à mente. A vida impõe desafios a todos, mas qual o grau de persistência de cada um? Qual a linha do limite?”

A pergunta é fundamental porque, afinal, não escolhemos todos os desafios que a vida nos apresenta. Podemos, entretanto, escolher a maneira de enfrentá-los.

Impressões de uma Vida é justamente a abertura dessa porta. Vilibaldo permite ao leitor entrar em sua história, conhecer suas dificuldades, suas conquistas, seus relacionamentos e, principalmente, a persistência que marcou sua caminhada.

A própria apresentação da obra utiliza uma bela metáfora ao dizer que ele lança sobre o papel “respingos das tintas” que tentaram turvar seus propósitos. Entretanto, por trás dessas marcas, permanecem visíveis as cores de sua resistência e de sua capacidade de retomar objetivos.

Talvez seja essa uma das grandes lições que podemos retirar de uma história de vida: não chegamos ao presente sem marcas. Algumas são produzidas pelas vitórias; outras, pelas perdas, decepções e dificuldades. Mas todas, de alguma maneira, participam da composição daquilo que somos.

No início dos diversos depoimentos de familiares e amigos presentes na obra, outra passagem sintetiza muito bem a personalidade revelada pelo livro:

“O livro mostra um homem que traz consigo — sem deixar nenhum pelo caminho — a criança e o adolescente, com as experiências, muitas vezes difíceis, que moldaram sua trajetória de empresário, marido, pai e, agora, avô.”

Gostei particularmente dessa ideia: não deixar pelo caminho a criança e o adolescente que fomos.

Envelhecer não deveria significar abandonar nossas versões anteriores. Dentro do adulto permanecem a criança que sonhou, o adolescente que enfrentou suas primeiras incertezas e o jovem que começou a construir projetos. Somos, afinal, a soma de todos aqueles que fomos.

Ao percorrer as páginas de Impressões de uma Vida, experimentei também uma sensação muito particular: percebi que faço parte, ainda que um pouquinho, da caminhada de Vilibaldo.

Nossos caminhos se cruzaram em diferentes momentos e circunstâncias.

Fui articulista, durante muitos anos, da Revista Expressão, publicação ligada à sua história. Somos irmãos de Maçonaria, vínculo que acrescentou outra dimensão à nossa convivência.

Vilibaldo tornou-se também Membro Honorário da Academia Ribeirãopretana de Letras — ARL, a meu convite, aproximando ainda mais nossas trajetórias no universo cultural e literário de Ribeirão Preto.

Estivemos juntos também na ACRECE, ele como presidente e eu como presidente do Conselho Deliberativo (1999 – 2002). Foram momentos de trabalho, reuniões, decisões e convivência que hoje pertencem à memória das instituições e, naturalmente, às nossas próprias lembranças. Foto de reunião da ACRECE: https://tortoro.com.br/wp-content/uploads/2014/02/2668-1.jpg

Não por acaso, encontro-me em uma fotografia publicada na página 90 do livro, justamente durante uma reunião da ACRECE.

É curioso pensar no significado de uma fotografia dentro de um livro de memórias. Naquele instante em que a imagem foi registrada, provavelmente ninguém imaginava que, anos depois, ela faria parte de uma obra destinada a preservar uma trajetória. É assim que o presente, quase silenciosamente, vai se transformando em história.

Também convivemos em diferentes momentos ligados à publicação de livros, entre eles O Passado Manda Lembranças — título que, diante de uma obra memorialística como esta, ganha até um significado especial.

E as lembranças vão criando ramificações.

Ao ler o livro, encontrei referências a pessoas que também passaram pela minha própria caminhada. Entre elas, a dupla musical Maurício e Marcelo, que foram meus alunos, e Willie Bueno, meu colega na ALARP.

Nesse momento, a leitura deixou de ser apenas a história de Vilibaldo para se transformar, em determinados trechos, numa espécie de território compartilhado de memórias.

Talvez esteja aí uma das maiores virtudes dos livros autobiográficos e memorialísticos.

Quando alguém escreve verdadeiramente sobre sua vida, não escreve apenas sobre si mesmo. Inevitavelmente escreve também sobre uma época, uma cidade, instituições, amizades, famílias, projetos e pessoas que participaram daquela caminhada.

Cada vida toca outras vidas.

Por isso, Impressões de uma Vida não pertence somente a Vilibaldo. Pertence também, em diferentes proporções, a Rosana, à família, aos amigos, aos companheiros de trabalho e a todos aqueles que, em algum momento, estiveram presentes nos caminhos percorridos por ele.

E eu tenho a alegria de poder dizer: em algumas dessas páginas, desses encontros e dessas lembranças, nossos caminhos também se cruzaram.

Receber este livro com uma dedicatória tão carinhosa fez-me perceber novamente a importância de registrarmos nossas histórias. O tempo passa, instituições se transformam, fotografias amarelecem, pessoas seguem caminhos diferentes. A palavra escrita, porém, possui uma extraordinária capacidade de preservar aquilo que o tempo insiste em levar.

Vilibaldo fez isso.

Abriu a porta de sua história e permitiu que outros entrassem.

Ao terminar a leitura dessas páginas, fica a impressão de que uma vida não pode ser medida apenas pelos cargos ocupados, pelas realizações profissionais ou pelos bens conquistados. Uma existência talvez seja melhor compreendida pelas marcas deixadas nas pessoas e pelas pessoas que deixaram marcas em nós.

Por isso, guardarei com carinho meu exemplar de Impressões de uma Vida.

Não apenas porque nele está registrada a trajetória de Vilibaldo Faustino Júnior, mas porque, em algumas de suas páginas, reconheço nomes, lugares, instituições, fotografias e momentos que também pertencem à minha própria história.

No fundo, nossas vidas são assim.

Vamos escrevendo livros diferentes, mas, de tempos em tempos, descobrimos que algumas páginas foram escritas juntos.

 

ANTONIO CARLOS TÓRTORO
Ex-presidente da ARL – Academia Ribeirãopretana de Letras
www.tortoro.com.br
[email protected]

 

ALARP-Academia de letras e Artes de Ribeirão Preto, ARL- ACADEMIA RIBEIRÃOPRETANA DE LETRAS, ARTIGOS, Li e gostei, LITERATURA, SOCIAIS

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