ARTIGO: IKIGAI – RAZÃO DE VIVER

 

IKIGAI: RAZÃO DE VIVER

Preciso encontrar, todos os dias, uma razão para me levantar da cama.

Não necessariamente uma grande razão. Às vezes, basta uma pergunta ainda sem resposta, uma notícia que desperte minha curiosidade, um livro esperando para ser aberto, uma ideia pedindo para virar texto ou um verso que nasceu durante a madrugada e não quer desaparecer.

Aprendi que viver também é procurar motivos para continuar.

Carrego comigo um luto profundo. Há ausências que o tempo não apaga. Podemos aprender a conviver com elas, podemos voltar a sorrir, conversar, trabalhar e até celebrar a vida, mas existe um lugar dentro de nós onde determinada ausência permanece.

Por isso, preciso encontrar uma forma de transformar meu luto em palavras.

Então escrevo.

Transformo o que sinto em textos, poemas, reflexões. Às vezes, uma dor que não consigo explicar encontra sentido quando se transforma em verso. Outras vezes, aquilo que sufocaria dentro de mim ganha liberdade quando chega ao papel.

Não escrevo para esquecer: escrevo justamente porque não quero esquecer.

Mas quero que a lembrança deixe de ser somente dor e possa também se transformar em criação, beleza, aprendizado e amor.

Talvez aí esteja parte do meu ikigai, da minha razão de viver.

Quero continuar aprendendo. Ler sobre tudo. Acompanhar o mundo. Pensar sobre os acontecimentos. Questionar. Formar minha opinião. Conversar com pessoas. Ouvir pensamentos diferentes dos meus e continuar intelectualmente vivo.

Quero continuar sendo educador, mesmo quando não houver uma sala de aula diante de mim.

Durante muitos anos, uma das maiores recompensas que encontrei em meu trabalho foi perceber que havia conseguido ajudar um aluno ou uma família. Hoje compreendo que essa necessidade de ser útil não terminou com determinada função profissional. Ela permanece dentro de mim.

Posso educar por uma conversa. Posso educar por um artigo. Posso educar por um poema.

E posso também aprender com cada pessoa que encontrar pelo caminho.

Quero transformar pensamentos em textos, sentimentos em poemas, poemas em músicas, ideias em imagens e tudo isso em vídeos capazes de chegar a pessoas que talvez eu nunca venha a conhecer pessoalmente.

Depois, quero compartilhar.

Porque criar sem compartilhar deixaria incompleto aquilo que procuro. Gosto do retorno, da conversa, da troca de experiências. Uma ideia minha encontra alguém; a resposta dessa pessoa volta para mim; e eu já não sou exatamente aquele que iniciou a conversa.

Aprendi alguma coisa novamente.

E o ciclo recomeça: aprender, refletir, criar, compartilhar e servir.

Talvez eu não precise descobrir uma única razão definitiva para viver todos os dias que ainda me forem concedidos.

Talvez seja suficiente acordar todas as manhãs e procurar a razão daquele dia.

Hoje pode ser um poema. Amanhã, uma música. Depois, uma conversa sobre educação. Em outro dia, simplesmente uma página de um livro que me ensine algo que eu ainda não sabia.

E haverá dias em que minha razão será transformar saudade em palavras.

Enquanto eu conseguir fazer isso, minha dor não será apenas sofrimento. Ela também poderá produzir alguma coisa que sobreviva a mim.

Por isso, todas as manhãs, quando abrir os olhos, quero poder dizer a mim mesmo: ainda tenho o que aprender, ainda tenho o que criar, ainda tenho o que compartilhar, ainda posso ser útil a alguém.

Então, ainda tenho uma razão para me levantar da cama.

 

ANTONIO CARLOS TÓRTORO
Ex-presidente da ARL – Academia Ribeirãopretana de Letras
www.tortoro.com.br
[email protected]

 

ARL- ACADEMIA RIBEIRÃOPRETANA DE LETRAS, ARTIGOS, BIOGRAFIA, LITERATURA, QUEM SOU

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