O PRIMEIRO LUTO
“Pesadelo de todo pai”
Jô Soares
Há notícias que despertam dores que julgávamos adormecidas.
A morte recente de dois jovens adultos — Marcelo Gasparini e Rafael Moreno — filhos de pessoas que conheço de longa data, levou-me de volta a um tempo que jamais esqueci: o da morte do meu filho Rodrigo.
Ele também partiu em agosto.
Desde então, agosto nunca mais foi apenas um mês.
Ao pensar nesses pais, lembrei-me de O Primeiro Luto, de William-Adolphe Bouguereau.
Na pintura, Abel está morto nos braços de Adão. Eva se curva sobre eles, vencida pela dor.
Bouguereau não pinta Caim, nem o crime.
Pinta o que ficou.
Dois pais diante do corpo do filho.
É chamado de O Primeiro Luto porque representa, simbolicamente, a primeira vez em que pais conheceram a morte de um filho.
Mas, olhando aquela tela, já não vejo apenas Adão e Eva.
Vejo os pais desses jovens.
E vejo a mim mesmo.
Quem perde um filho descobre que a vida passa a ter dois tempos: antes e depois.
Depois, o mundo continua. O sol nasce, as pessoas trabalham, as festas chegam, os anos passam.
Nós também continuamos.
Mas nunca exatamente os mesmos.
Dizem que o tempo cura. Talvez não cure. Talvez apenas nos ensine a conviver com uma ausência que, pouco a pouco, se transforma em saudade e presença interior.
Porque um filho nunca se torna passado.
Continuamos seus pais.
Continuamos pronunciando seu nome.
Continuamos amando.
É isso que mais me toca no quadro de Bouguereau: Adão segura Abel como se não pudesse soltá-lo.
E como poderia?
Há abraços que os braços precisam interromper, mas que o coração continua dando para sempre.
Hoje penso nesses pais que começam a percorrer esse doloroso caminho.
Não tenho explicações para lhes oferecer.
Tenho apenas minha solidariedade e a compreensão de quem também conhece essa estrada.
Meu Rodrigo partiu em agosto.
Os anos passaram.
Mas continuo seu pai.
Bouguereau chamou sua obra de O Primeiro Luto.
Depois daquele, vieram tantos outros.
Agora, esses pais também entram silenciosamente naquela tela.
Um dia, entrei eu.
E nela permanecemos, abraçando nossos filhos na memória e aprendendo a continuar.
Porque a morte pode retirar um filho dos nossos braços.
Do nosso coração, jamais.
ANTONIO CARLOS TÓRTORO
Ex-presidente da ARL – Academia Ribeirãopretana de Letras
www.tortoro.com.br
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