ARTIGO: HOMENAGEM PÓSTUMA A MARCELO GASPARINI

 

HOMENAGEM PÓSTUMA A MARCELO GASPARINI

Há perdas que nos entristecem. Outras, porém, atravessam o tempo, abrem antigas gavetas da memória e nos fazem reencontrar pessoas como eram décadas atrás.

Foi assim que recebi a notícia da morte de meu ex-aluno Marcelo Gasparini.

Conheci Marcelo e seu irmão gêmeo, Maurício, quando tinham por volta de onze anos, no Colégio Santa Úrsula, onde eu era Coordenador Pedagógico e responsável também pela disciplina dos alunos.

Hoje, quando olho para uma fotografia de Marcelo adulto, acontece algo que talvez somente um professor consiga compreender inteiramente: não vejo primeiro o homem. Vejo o menino.

O tempo parece retirar-se por alguns instantes e lá estão novamente os dois irmãos, Maurício e Marcelo, nos corredores do colégio. Lembro-me também, com especial carinho, de seu pai, com quem mantive um relacionamento muito marcante e que igualmente já partiu.

Anos depois, quando os gêmeos já haviam seguido o caminho da música, viveríamos um daqueles momentos que um educador guarda para sempre.

Participávamos de um programa de auditório na televisão — comandado pelo apresentado, Jorge Kajuru, — com alunos de meu colégio. Maurício e Marcelo cantaram o Hino à Bandeira e, diante das câmeras, fizeram questão de declarar publicamente a importância que eu tivera, como educador, em suas vidas e, junto à família, na formação cívica deles.

Nunca esquecerei.

Um professor talvez não saiba exatamente onde termina uma aula. Algumas continuam durante anos. Outras atravessam uma vida inteira.

Em minha longa caminhada pela Educação, infelizmente já perdi ex-alunos. Cada partida dói de uma maneira particular. Mas algumas atingem regiões muito profundas da memória. A morte de Marcelo foi uma delas.

E penso especialmente em Maurício.

Há algo singularmente doloroso em um gêmeo precisar continuar a caminhada sem aquele que, desde antes do nascimento, caminhava ao seu lado. É preciso aprender uma nova forma de existir: continuar sendo inteiro quando uma presença que parecia parte de si já não pode ser tocada.

Mas acredito que os vínculos verdadeiramente profundos não terminam diante de um túmulo.

Faço minhas as palavras atribuídas a Santo Agostinho: a morte não é nada mais que uma passagem para o outro lado do Caminho.

Marcelo apenas chegou antes.

Por isso, meu querido Maurício, força.

Continue caminhando.

Continue cantando.

Continue vivendo também as belas lembranças que somente vocês dois compartilharam.

Um dia, quando chegar o momento determinado para cada um de nós, talvez você descubra que seu irmão não estava ausente.

Estava apenas do outro lado do Caminho, esperando.

E então já não haverá separação, saudade ou silêncio.

Haverá apenas o reencontro.

E, selando novamente a fraternidade de dois irmãos que começaram juntos esta existência, haverá um longo, caloroso e glorioso abraço entre eles.

 

ANTONIO CARLOS TÓRTORO
Ex-presidente da ARL – Academia Ribeirãopretana de Letras
www.tortoro.com,.br
[email protected]

 

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