ARTIGO: O PODER DIANTE DA ETERNIDADE

O PODER DIANTE DA ETERNIDADE

Morre um general aparentemente muito querido.

Seria mesmo querido pelos seus subalternos, com quem conviveu no cotidiano? Ou seria querido somente por aqueles que o conheceram em relações sociais e profissionais de todos os tipos?

Imagino esse poderoso general sozinho em seu túmulo.

Ali, finalmente, não há servidores. Não há assessores. Não há subordinados esperando suas ordens.Não há alguém diante de quem precise levantar a voz para demonstrar autoridade. Não há ninguém que possa ser diminuído para que outro se sinta maior.

No silêncio absoluto do túmulo, títulos não impressionam. Cargos não abrem portas. Condecorações não iluminam a escuridão. A conta bancária ficou do lado de fora. As propriedades mudaram de mãos. O poder que parecia tão sólido desapareceu no instante em que cessou o último suspiro.

E lembro-me do Eclesiastes: “Vaidade de vaidades; tudo é vaidade.”

Então me pergunto: o que esse poderoso levará para a eternidade? Aonde o acompanhará o orgulho? De que lhe servirão, em outra dimensão, as ordens que deu? E se, no exercício do poder, humilhou alguém? E se confundiu respeito com temor, reconhecimento com bajulação, autoridade com submissão?

Talvez exista, depois desta vida, um momento em que sejamos colocados diante de nós mesmos. Não diante de um tribunal de homens, mas diante da própria consciência.

Talvez ali não seja possível contratar advogados, apresentar justificativas, distribuir culpas ou usar a autoridade para impedir que outras vozes sejam ouvidas.

Talvez cada um tenha simplesmente de olhar para aquilo que fez…e compreender.

Compreender, sobretudo, uma diferença que o poder frequentemente esconde: ser querido não é a mesma coisa que ser necessário, temido, bajulado ou conveniente.

Quantas pessoas se aproximam de alguém poderoso porque ele possui poder, influência, prestígio ou alguma coisa para oferecer?

Quantas permaneceriam ao seu lado se nada pudesse lhes dar?

Quantas dizem “sim” porque realmente concordam — e quantas dizem “sim” porque não se sentem livres para dizer “não”?

Existe uma enorme distância entre ser cercado de pessoas e ser verdadeiramente amado.

O amor autêntico não consulta o alcance do poder. Não pergunta pelo cargo. Não calcula vantagens. Não espera recompensa.

Talvez a verdadeira riqueza de uma existência esteja justamente naquilo que fazemos quando ninguém está olhando; no bem que praticamos sem anunciar; na mão que estendemos sem esperar gratidão; na pessoa que ajudamos sem perguntar o que receberíamos em troca.

Um dia, poderosos e humildes ocuparão aproximadamente o mesmo espaço de terra.

E talvez, diante da eternidade, reste uma única pergunta:

— O que você fez com o poder que a vida colocou em suas mãos?

Porque o poder passa. O poder muda de dono. Os títulos desaparecem. Os aplausos silenciam.

E o orgulho, diante da eternidade, talvez descubra tarde demais que passou a vida construindo um trono que não cabia dentro do túmulo.

Mas o bem que alguém fez silenciosamente… talvez esse atravesse a eternidade.

 

ANTONIO CARLOS TÓRTORO
Ex-presidente da ARL – Academia Ribeirãopretana de Letras
www.tortoro.com.br
[email protected]

ARL- ACADEMIA RIBEIRÃOPRETANA DE LETRAS, ARTIGOS, LITERATURA

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