ARTIGO: HONRA E RESPONSABILIDADE

 

HONRA E RESPONSABILIDADE

Glória, se não conduz à ação, degrada-se em vaidade

Fui Presidente por dez anos da ARL -Academia Ribeirãopretana de Letras, e por 5 anos da ARE – Academia Ribeirãopretana de Educação.

E sempre enfrentei o mesmo problema: a falta de compromisso de alguns membros após suas públicas e  festivas posses.

Por isso tenho refletido, com crescente inquietação, sobre um paralelo que atravessa dois universos aparentemente distantes — o do futebol e o das letras — mas que revelam, em sua essência, uma mesma fragilidade humana: a tendência de confundir honra com privilégio, e responsabilidade com ornamento.

Quando um jogador é convocado para a Seleção Brasileira, ele não está recebendo apenas um prêmio; está sendo chamado para servir a uma instituição que representa o imaginário, a emoção e a identidade de um povo inteiro. Ainda assim, ao longo das últimas décadas, testemunhei episódios em que alguns atletas, já confortavelmente instalados em suas carreiras internacionais, encararam a convocação como um adereço, não como um dever. Vieram sem ardor, sem entrega, sem aquele compromisso quase sagrado que deveria acompanhar a camisa amarela. Houve recusas justificadas por conveniências particulares, participações pálidas em compromissos decisivos e atuações que, claramente, não correspondiam à grandeza da instituição que os convocara.

Mas não se pense que essa postura é exclusividade dos gramados. No universo das letras, que deveria ser território do espírito e da lucidez, observo fenômeno semelhante. Há escritores que, ao serem eleitos para uma cadeira em uma Academia — seja ela municipal, regional ou nacional —, interpretam o gesto como coroação definitiva. A posse solene, os aplausos e a distinção social tornam-se, para alguns, um ponto de chegada. Instalam-se, então, numa espécie de “silêncio ornamental”: raras presenças nas reuniões, contribuições tímidas ou inexistentes, nenhuma preocupação real com o projeto intelectual coletivo que justificou, em primeiro lugar, a existência da instituição.

Posso afirmar, com convicção amadurecida pela vida, que essa atitude revela não apenas equívoco, mas descompromisso moral.
Quem chega ao patamar máximo não deveria repousar sobre a glória — deveria trabalhar para engrandecê-la.

Um jogador convocado para defender o Brasil deveria perguntar a si mesmo:
“Como posso honrar o que me foi confiado?”
Jamais: “O que esta convocação acrescentará ao meu currículo?”

Um escritor eleito para uma Academia deveria refletir:
“O que posso oferecer à casa que me acolhe?”
E não: “Que prestígio recebo ao ocupar esta cadeira?”

Glória, se não conduz à ação, degrada-se em vaidade.
E vaidade é o contrário de legado.

As instituições — sejam esportivas ou literárias — não existem para servir de vitrine a indivíduos; existem para serem alimentadas pela dedicação, pelo trabalho e pela inteligência daqueles que têm o privilégio de representá-las. Quando um convocado, seja atleta ou intelectual, recusa-se a contribuir, pratica, ainda que silenciosamente, uma forma de traição simbólica.

Por isso afirmo, sem hesitar: quem aceita a honra deve carregar também o peso do compromisso.
Não se trata de sacrifício, mas de coerência.
Não se trata de obrigação burocrática, mas de respeito ao valor histórico, cultural e espiritual da instituição que o acolheu.

Que eu, por minha parte, nunca me esqueça disso.
Que, diante de qualquer honra que me seja confiada, eu tenha sempre a lucidez de não me sentar sobre o título, mas de erguer-me para servir.
Porque toda glória exige trabalho; e todo trabalho, quando bem cumprido, transforma-se no único patrimônio que realmente permanece: o legado.

Deixei o meu legado.

 

ANTONIO CARLOS TÓRTORO
Ex-presidente da ARL – Academia Ribeirãopretana de Letras
www.tortoro.com.br
[email protected]

 

 

ARE-Academia Ribeirão-pretana de Educação, ARL- ACADEMIA RIBEIRÃOPRETANA DE LETRAS, ARTIGOS, LITERATURA