ARTIGO: TOLSTÓI E EU

 

TOLSTÓI E EU

“Minha reflexão após relembrar a fuga de Tolstói aos 82 anos”

A história de Tolstói, aos 82 anos, abandonando sua casa e sua esposa Sófia, em busca de silêncio, paz e coerência espiritual, mexeu profundamente comigo. Ao revisitar aquele episódio, percebi que há algo nele que toca a minha própria vida, neste momento em que caminho pelos arredores dos meus 80 anos com uma lucidez que só o tempo é capaz de conceder.

Hoje eu olho para trás e percebo que percorri quase todas as estradas que um homem poderia trilhar. Não é melancolia que sinto — é consciência. Uma consciência tranquila, serena, mas também inquieta em alguns cantos mais silenciosos da alma. Vivi muito, senti muito, amei muito, sofri perdas irreparáveis, e tudo isso moldou esse estado interior em que me encontro agora.

É natural que, ao chegar aqui, eu sinta — assim como Tolstói sentiu — uma espécie de chamado para um recolhimento maior. Às vezes, me imagino vivendo meus últimos dias num mosteiro distante, talvez no Tibete, em contato apenas com a minha respiração, com a minha história e com o que restar do meu espírito quando todo o barulho do mundo se apagar.

Não seria fuga, seria sabedoria.
Uma vontade de ouvir, finalmente, o que ainda não escutei de mim mesmo.

Mas a minha vida, tão diferente da dele, é atravessada por outra força de igual grandeza: a minha família formada por Lu, minha Sófia Tolstaia, e eu.

Eu lutei por ela a vida inteira.
Trabalhei para que nada faltasse a ela.
Guardei, protegi, orientei, abracei, e dei o melhor de mim em cada etapa.
E, agora, quando penso nesse “mosteiro interior”, percebo que partir — mesmo simbolicamente — seria causar uma dor injusta àqueles que ainda precisam do meu olhar, do meu afeto, da minha presença.

Eu não posso e não quero fazê-los sofrer. Não seria justo.

Tolstói fugiu porque sua convivência final era um peso insuportável para ele.
Eu, ao contrário, permaneço porque minha convivência é uma dádiva — para mim e para eles.

Ficar não é abdicar do meu desejo de silêncio. Ficar é escolher. É amar.
É exercer a ética de quem sempre colocou o outro antes de si.

E foi essa consciência que me mostrou: o meu mosteiro não está no Tibete.

Ele já existe dentro de mim.

Ele aparece quando estou sozinho refletindo, quando lembro do meu filho que partiu, quando observo a casa em silêncio, quando já não sinto necessidade de provar nada a ninguém, quando percebo que minha própria respiração já é oração suficiente.

Eu visito esse mosteiro interior todos os dias — mesmo sentado à mesa com minha família, mesmo preparando meu próximo aniversário, mesmo vivendo o cotidiano que construí com tanto esforço e amor.

Por isso, permanecer não é renúncia espiritual: é a forma mais elevada de vivê-la.

Posso não me recolher num mosteiro distante, mas aprendi algo precioso:
posso ser monge entre os meus.

E essa é, talvez, a missão final que a vida me entregou.

 

ANTONIO CARLOS TÓRTORO
Ex-presidente da ARL – Academia Ribeirãopretana de Letras
www.tortoro.com.br
[email protected]

 

COMENTÁRIOS SOBRE O ARTIGO ACIMA:

 

Caro amigo, que texto profundo, que confissão. Receba meu abraço.

WLAUMIR – Confrade da ARL – Academia Ribeirãopretana de Letras.

 

Bom dia, meu amigo.

Cansado de tanto carregar caixa, aquieto-me num canto e leio seu Tolstói e Eu. Lindo e amargo artigo. Lindo quando diz o meu Tibete está dentro de mim. É isso mesmo. Muitos procuram lá fora o que vai dentro deles, e quebram a cara. Este é um bem da maturidade: a sabedoria.

E cá  pra nós, precisamos de quase nada para viver bem, se temos o amor e o respeito da família. E você os tem, e isso basta.  Basta, mesmo!

Estou montando o Jornal da ARL. Você tem tanta coisa boa publicada! Mas, se me autorizar, vou publicar este artigo, rico demais, e que vai valer a pena quando alguém o ler. Pode ser?

Um beijo pra você e para sua “Tolstaia.

WALDOMIRO PEIXOTO – Confrade da ARL – Academia Ribeirãopretana de Letras.

 

Já fizemos nossa contribuição ao mundo

Continuamos a contribuição, bem menos, mas é a quantidade exata daquilo que ainda podemos oferecer!

Amo meu recolhimento!

Amo silêncio das vozes e barulhos urbanos ( as vezes insuportáveis)

Me recolho em meus feltros e divido com eles belos momentos !

MARIA INÊS PEDRO BOM – Professora, e uma amiga de longo tempo

 

 

Uauuuu!!! Que texto forte, querido amigo… denso… estava deitado em um divã e abriu a alma…

Tórtoro espero chegar a casa dos 80… minha mãe com uma lucidez incrível e habilidosa com a vida… me ensina todos os dias um pouco sobre a vida… talvez uma forma de me lapidar junto com  a fé em Deus…

O contato que tenho, infelizmente, com essa década cronológica dos 80 é pequena… muitos estão numa outra dimensão…

Queria ter uma lupa para saber o que vocês da “ casa sábia” poderiam dizer mais sobre o próximo… sobre a vida… sobre a perspectiva…

Talvez um gatilho para escrever mais em nome do Tolstói sem precisar fugir…

RENATA SBÓRGIA – Confrade da ARL – Academia Ribeirãopretana de Letras, Professora, e uma amiga de longo tempo

 

Bom dia, amigo!

Lindíssimo seu artigo.

Você sempre  será lembrado como um Mosteiro Franciscano em dia de festa!

Tem muita energia boa para espalhar.

Um grande abraço!

Bjus prá vc e pra Lu.

MÁRCIA BELEBONI NISHI – Professora e uma amiga/irmã de longo tempo

 

Que beleza de texto!
Emocionante, mesmo.
Bem diferente de ” O espelho”, de Machado.
NELY CYRINO – Confrade na ARE- Academia Ribeirãopretana de Educação

 

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